quinta-feira, 22 de abril de 2021

Fiat Lux: como um ato imperial pode iluminar os amigos!

Por ordem de Sua Majestade Imperial, Wladimir Ulianov, I, O Imprudente, aos Vinte e Dois Dias do Mês de Abril do Ano de Dois Mil e Vinte e Um, faço a todos os súditos do Reino Unido da Terra Plana, a planície goytacá, e a todos aqueles que aqui estiverem, que a partir desta data, revogados todos os atos em contrário, passará a vigorar este ato régio, conforme seus Artigos e dispositivos que seguem:


Artigo 1º

Este ato se destina a regular as novas diretrizes para a contratação de serviços e bens públicos pelo Tesouro Real, e especificamente aqueles dedicados ao trato da Iluminação do Paço Real, das serventias da Corte e dos Feudos unidos a este Reino, desde a fronteira norte, com os selvagens capixabas até o sul limitado pelas terras capitaneadas pelo Barão de Quissamã, e todos os demais marcos geográficos onde se confirmam as possessões de Sua Majestade Real.

§ 1º - Ficam suspensos todo o bom senso, a moralidade, a economicidade, a boa-fé, e todos demais princípios dos atos administrativos, e por fim, o zelo com o Erário, diante da emergencial necessidade de atender aos interesses dos fiéis cruzados empresariais que lutaram ao lado de Sua Majestade Imperial durante a sangrenta luta eleitoral contra os infiéis e bárbaros clãs dos MacBacellarius e associados;

I- Contratos licitados pelo Pregoeiro-mor anterior (que deve ser decapitado), mesmo que porventura ainda vigorem, serão substituídos por outros de maior valor, cujos processos devem ser simplificados ao máximo, mesmo que se trate de mesmo serviço e bens em igual quantidade, sendo certo que se não há justificativa para tanto, bastará apenas a Sacra Vontade de Sua Majestade;

II- Serão considerados inimigos reais todos aqueles que ousarem questionar os termos deste ato e levados às barras da Sagrada Ordem da Inquisição da Lapa;

III- Os casos omissos serão decididos em Actus Inquisitorium, cujas decisões finais caberão a suprema e indiscutível sapiência de Sua Majestade e seu conselho de nobres.

Divulgue-se, publique-se e CUMPRA-SE.

Fiat Lux (Faça-se a luz)!


quarta-feira, 21 de abril de 2021

Wladimir, o indeciso: no topo do mundo!

 


Lei Imperial Tibet(*).

Aos Vinte Um Dias do Ano de Dois Mil e Vinte e Um da graça de Nosso Senhor, nas terras sob o Imperium de His Royal Majesty Wladimir Ulianov I, o indeciso, saibam todos e a todos faço saber por esse edital, que publico por ordem da Sua Majestade, que:

A partir desta data, revogando todas as certezas em contrário, a cidade imperial de Campos dos Goytacazes e seus fiéis súditos e todos aqueles que aqui estejam, ainda que de passagem, estão proibidos de dizer que os índices de mortalidade, de internações e infectados pelo vírus covidus orientalis  estejam em curva ascendente;


Artigo 1º.

§ 1º- Todos os conceitos e teorias sobre a realidade da doença nas terras de Sua majestade passam a ser definidas como mentirosas, salvo nas condições expressas abaixo:

I- A atual situação está sob controle de Sua Majestade e sua competente equipe;

II- As doses usadas por orientação dos Sumos Sacerdotes do Evangelho do Bolsofagismo, que deveriam ser usadas como reserva de segunda dose não serão mais necessárias no tempo previsto pelos hereges e infiéis cientistas dos laboratórios profanos, que a partir de hoje são declarados para efeitos do Inquisitorum Libelum como "bruxos", sujeitos à morte na fogueira de algoritmos;

III- Não há pessoas na fila de espera por leitos, há um processo necessário de desospitalização da doença, que Sua Majestade em sua infinita sabedoria, grandeza e bondade resolveu instalar;

IV- Não há mortes causadas por incompetência, e sim God Acts (Atos de Deus), que Sua Majestade e sua Corte, com enorme sacrifício de suas consciências, aceitam cumprir como faz o Arcanjo Gabriel desde tempos imemoriais;

V- O comércio, a economia, os restaurantes e academias são as razões de Estado de Sua Majestade, pois se é mais fácil um camelo passar em uma agulha que um rico entrar no reino dos Céus, como terá recursos Sua Majestade para construir "agulhas" nas rodovias para que possam ali transitar os camelos dromedários?


(*) - Como a curva de infecção e mortes se "estabilizou por cima", Sua Majestade em sua infinita sabedoria achou por bem de "apelidar" este régio ato como "Tibet", alto e com ar escasso.

De cara nova, mas o mau cheiro de sempre!

 Nosso novo nome para este blog tem dois objetivos:

O primeiro é auto-explicativo, ou seja, a gente não vai mais dourar a pílula, pois não dá para viver na merda e tentar disfarçar com perfume francês.

Aliás, não temos dinheiro hoje nem para Leite de Rosas.

Como uma flatulência mal cheirosa, daquelas que emanamos depois de três horas de rodízio de carne bovina, com sobremesa de sorvete de chocolate com calda de doce de jenipapo, nosso objetivo é avisar que a merda está por vir...

Já o segundo objetivo, e por assim dizer, subsidiário, é encerrar esta fase pandemia, já que o descaso, a incompetência, tudo "arrumado" dentro da lógica genocida e "evolucionista" do capitalismo, que reserva as melhores chances de sobrevivência aos mais ricos, enquanto pobres vão para o esgoto, parecem ter criado uma certa "imunidade" à realidade.

Isto é, nos acostumamos com mortes, 370 mil ou muito mais, considerando que os chamados "números oficiais" são comprovadamente e criminosamente mascarados pelo "delay" estatístico, nos acostumamos com falta de insumos, pessoas sufocando, ataque às redes de proteção social, "teto de gastos" ( nosso Auschwitz orçamentário), etc, etc, etc.

Então, seguindo a "manada", vamos fingir que tudo isso é "assim mesmo", e vamos "superar".

Afinal, como o conceito genial de um roteiro de um filme da Netflix, que assistia ontem ou anteontem com minha esposa, cujo título está aí embaixo:

"O pensamento é a coisa mais próxima da realidade, porque você pode fingir palavras ou gestos, mas você não consegue fingir o que pensar".



Talvez seja isso...

Já que na era da geração dos imbecis das consoantes ("kd", "vc", "tb", "msm") a atividade de pensar parece cada vez mais rara, talvez este "excesso de realidade" tenha nos afastado da "verdade" dos nossos pensamentos...

É isso!

O "excesso" de gestos e falas que nos assolam e nos soterram como uma avalanche de fatos nos impedem de refletir, e por isso a "realidade" é tão fake hoje em dia...


Este "novo" blog é uma manifesto a mais pessimismo, mais silêncio, mais reflexão...

Pois o único jeito de ser feliz é sendo burro...e na era da ditadura das individualidades e da busca pela "felicidade obrigatória", só a "tristeza" nos salvará da burrice contente e orgulhosa de si mesma!

"deus acima de todos"...(risos nervosos)...

Bem-vindos, e lembrem-se:

O otimista acha que está tudo uma merda, já o pessimista tem certeza de que a merda não dará para todo mundo... 





segunda-feira, 12 de abril de 2021

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A volta na planície em 98 dias.

Com as devidas licenças e escusas a Julio Verne, o célebre autor de "A Volta Ao Mundo Em 80 Dias", tomei emprestado parte do título para dar uma dimensão aos poucos leitores e leitoras deste texto dos percursos e caminhos simbólicos e reais percorridos pelo atual Prefeito da cidade de Campos do Goytacazes.

Muita gente vai esperar os 100 dias.

Como não tenho muito talento para a coisa, decidi chamar à atenção escrevendo antes, ou, "onça que acorda cedo, bebe água mais limpa".

Pois bem, introduções feitas, vamos à vaca fria.

É preciso dividir a análise em duas, para depois, ao fim reunir novamente.

Desnecessário falar sobre a Dinastia Garotinho no cenário histórico recente da política regional e local, e quiçá nacional, para o bem ou para o mal.

No entanto, nenhuma consideração ou teoria séria sobre o desempenho do herdeiro deste legado político poderá se afastar muito da influência que seus pais têm sobre ele.

Tenho observado com especial atenção ao jeito do atual Prefeito, e sua aparente tentativa de estabelecer uma divisa drástica com a fracassada administração anterior, ao mesmo tempo que busca fazer a todos crerem que não é uma repetição dos seus pais, ou melhor dizendo, não é a volta da roda da História.

Por óbvio que isso seria impossível, mas o fato é que o atual Prefeito tem procurado estabelecer pontes ou recuperar aquelas rompidas pelo desgaste natural do projeto político de seus pais, e nisso também eu contrabandeio uma psicologia de botequim ao dizer que me parece que o atual Prefeito buscar romper com esta identificação política com seus pais, porém ao mesmo tempo, e paradoxalmente, precisa dela, pelo menos enquanto não tiver a sua imagem própria.

Aí que mora o perigo desta jornada de quase 100 dias, esta volta ao "pequeno mundo de Bob", a planície.

O atual Prefeito é parte de sua geração, conectada, individualista, com pouca leitura, ou com leitura de pouca densidade, salvo raras e honrosas exceções.
Esta geração se comunica por um dialeto entrecortado de imagens ("emojis") e contrações gramaticais ("vc", "kd"), afeita à superexposição, de respostas e atos instantâneos e, algumas vezes, irrefletidos, superexcitados e com tendências ao desânimo profundo.

Este corte geracional é fruto do derretimento das esferas públicas de sociabilidade, do fim do capitalismo como sistema de organização econômica, e ao mesmo tempo, da sua ordem política de representação.

É a geração do fim do mundo como o conhecemos, e da ditadura da individualidade.

É tudo ao mesmo tempo agora!

Montar um capital político dentro deste contexto não é algo fácil, ainda mais em meio a pandemia, que pode ser colocada como o maior evento histórico deste início de século, e dentre os mais importantes da Humanidade em todos os tempos.

A oscilação do atual Prefeito com relação às suas responsabilidades diante do quadro sanitário de catástrofe, ora parecendo que vai endurecer e agir como gestor público, ora pendendo para ceder às pressões dos necro-comerciantes, ou melhor dizendo, os mercadores da morte, é em parte fruto de sua compreensão geracional de mundo, além, é claro, de seus compromissos e interesses políticos.

Eu torço muito para que tais interesses se alinhem à esquerda, embora eles pareçam muito com o viés liberalismo-popular-evangélico praticado por seus pais, com algumas modernizações de estilo.

O pânico da impopularidade, o receio de "desgostar" a todos, ou pior dizendo, a tentativa ingênua de querer agradar a todos, a incompreensão (confusão) do significado de um gesto democrático do diálogo, e assim de entender a impropriedade de chamar ao debate quem não poderá contribuir com mais nada que seus próprios mesquinhos interesses, é resultado desta inexperiência geracional.

Este "assembleísmo" nunca trará soluções e conforto político, porque o dilema ali debatido é falso, pois não há economia sem gente viva, e porque neste caso de suprema emergência, o poder público não pode perguntar o que fazer, ele tem que saber o que fazer, e fazer, ponto final!

Se errar ou acertar, assuma e aceite as consequências, mas a "terceirização" do risco não cabe neste contexto trágico que a cidade vive, e principalmente porque o setor dos mercadores da morte não vai assumir nenhum ônus quando os corpos estiverem dispostos nas ruas, como aquele cenário deprimente do Equador (Guayaquil), no ano passado.

Aqui esta viagem de 98 dias pela planície faz uma inflexão do campo pessoal-político do Prefeito para o campo geral de análise.

Tudo isso que dissemos aí em cima está mergulhado no cataclismo mundial trazido pela hegemonia brutal das finanças sobre a realidade produtiva.

A gestão das cidades é um micro-universo que nos revela que não há saída próxima, e talvez nenhuma saída possível.

Os orçamentos públicos estão estagnados em um círculo, ou quem sabe uma espiral, quando os setores produtivos não conseguem responder para gerar emprego e renda, e por conseguinte, tributos, demandando mais e mais os parcos recursos públicos, que se esvaem dia-a-dia, trazendo para o ralo o tecido social.

Por certo a pandemia agravou o quadro e acelerou seus efeitos, no entanto, o cenário já nos rondava há tempos.

Não há mais pactos "sub-keneysianos" possíveis para o capitalismo de periferia onde estamos.

Aquilo que chamavam de democracia, e nunca foi de verdade, porque nunca deu chance a qualquer projeto político que ousasse alterar os rumos do capitalismo, esta encenação representativa virou uma arena de ruídos, onde todos gritam e ninguém apresenta nenhuma razão!

Ou seja, se a "democracia" era algo falso, mas tolerável, o que vivemos hoje é insuportável e incapaz de solucionar os embates que vêm por aí, restando espaço apenas para soluções de força.

Não há mais dinheiro "novo", só há dinheiro, e ele está concentrado nas mãos do 1% dos ultra-mega-super-ricos do planeta, que reúnem a riqueza maior que a acumulada pelos 99% restantes.

Dentro deste 1% de super ricos, 10% deles acumula mais da metade da riqueza dos outros 90% dentro desta camada destes super ricos.

Nenhum arranjo tributário hoje consegue alcançar politicamente e economicamente este patamar de concentração.

O resultado?

A tempestade perfeita, tudo em nanosegundos, ao vivo, em rede neural universal, onde cada unidade pessoal (ser humano) é uma bomba relógio de frustrações e de demandas sem perspectiva de qualquer futuro.

Como cantou Gilberto Gil: "antes mundo era pequeno, porque terra era grande".

Parabolicamará.

Antes mundo era pequeno
Porque terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião, o tempo de uma saudade
Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará
Volta do mundo, camará
Mundo dá volta, camará









 

quinta-feira, 11 de março de 2021

A era do fim das coisas como serão!

Nos últimos meses, melhor dizendo, nos últimos anos, uma boa parte da teoria das ciências sociais, políticas tem se dedicado a entender este momento que parece ser o de uma transição do capitalismo como forma de organização social produtiva, que tem por base a acumulação pela expropriação da mais-valia extraída do trabalho adquirido através da remuneração salarial.

Neste grupo de pensadores, o destaque é, na minha opinião, para um bom time de geógrafos, que parecem ter saltado à frente da anemia intelectual dos historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos.

Talvez na esteira do David Harvey, o geógrafo britânico um dos maiores entendedores do que se passa no mundo hoje.

Não citei economistas de propósito, pois os considero como meros charlatães, um tipo de "parapsicólogos sociais", tão desprezíveis quanto inúteis em sugerir narrativas, ao mesmo que tentam em desespero torná-las reais com seu suposto dialeto, o econômes.

Não sabemos se esta "hegemonia da Geografia" se dá porque o fim do capitalismo, que é um sistema produtivo que se organiza tendo o locus (espaço) como um dos pilares, indica que sua próxima fase prescindirá em muito desta premissa espacial (da geografia do capital pelo mundo).

Mas o fato é que os geógrafos estão na crista da onda, e procuram nos fornecer bases teóricas robustas, com ênfase na atualização do pensamento marxiano, que apesar de reconhecidamente não resolver todos os nossos problemas (e nem pretendia, diga-se), ainda é o mais atual e agudo modo de entender a realidade capitalista que dispomos. 

Muito se fala hoje em "capitalismo de dados", "capitalismo de vigilância", "capitalismo financeiro", etc.

Me parece, com toda minha ignorância intelectual, fundada em meu total desprovimento acadêmico, que a corrida é para dar antes um nome para chamar de seu, garantindo loas à vaidade pessoal da primazia da nomenclatura, deixando de lado a necessidade de real entendimento do que se passa.

É um desejo legítimo, porém inútil, porque a vaidade, sabemos, é a mãe de todos os pecados capitais.

Há muito tempo atrás, acho que eu tinha uns 17 ou 18 anos, nosso debate era se o período compreendido entre o fim do feudalismo e o início do surgimento das cidades (burgos), criadas  a partir de acumulação primária dos excedentes comerciais (rotas das especiarias, mercados locais, etc) e das inovações tecnológicas, poderiam ser chamadas de capitalismo mercantil ou pré-capitalismo.

Uma grande asneira, que nos subtraiu a compreensão em perspectiva histórica de um grande flagelo que foi justamente o responsável, isto é, como mola mestra indispensável a acumulação de riquezas para a fase industrial que se seguiria: a escravidão africana.

Como boa parte das escolas de pensamento vinha da Europa, havia uma espécie de consenso-de-negação de que as vantagens competitivas deles na geopolítica do capitalismo de então e até hoje eram resultado da imposição deste suplício africano.

Este assunto jamais foi tratado como devia, dando-nos a entender que o capitalismo era algo que só poder ser considerado como fruto da explosão industrial, que por suas vezes era a consequência de combinação daquilo que Harvey chama de condições essenciais do capitalismo (acho que são sete ou oito, não me lembro), dentre as quais destaco os recursos naturais, inovações tecnológicas, ambiente propício (locus,  já que naquele tempo, mais do que hoje, o que determinava o sucesso ou insucesso de empreitadas era a proximidade com portos e entre centros produtores e mercados, etc).

Bem, creio que ninguém duvida de que qualquer forma de organização social e dos meios de produção não prescinde de gente.

No entanto, essa assertiva não nos garante que será sempre assim.


A despeito da minha ranzinice com este pessoal que advoga a tese do "capitalismo de vigilância ou de plataformas", não deixo de reconhecer que ali há alguma construção teórica a ser aproveitada, embora falte perspectiva histórica ampla e mais conhecimento de Marx, ou de Harvey, ou de outras contribuições preciosas, como a de Kurz (Robert) e sua escola da Crítica do Valor.

Há também os que já enxergam os pressupostos da "escravidão digital", mas que bebem na mesma fonte de erros, ou seja, esquecem de ler o bom e velho Marx, na sofreguidão de herdar seu legado na elaboração teórica desta envergadura.

Como já disse, é uma pretensão válida, que tem se mostrado até aqui inútil.

Vou dar um pulo à frente, e depois volto aonde estamos.

O que estas escolas atuais parecem desconhecer é o componente humano aqui colocado, apesar de dizerem o contrário:

Se na transição feudalismo x capitalismo a força humana de trabalho escrava foi não só fundamental, como imprescindível à acumulação primária, persistindo até bem tarde nas franjas coloniais que ainda sustentavam parte do arranjo capitalista, é novamente agora a força humana escrava que dá sustentação a nova transição, onde a forma anterior de organização do trabalho deixa de ser relevante.

No feudalismo, as formas de assentamento da força laboral obedeciam os critérios rígidos da estrutura hierárquica de classes e nascimento (nobres, Igreja e não nobres), porém que permitiam aos servos uma fixação em seu ambiente (terra), e recebia como resultado parte do produzia, e tais excedentes em algum tempo foram tão significativos a ponto de criarem condições de escambo, que deram origem às cidades, ao dinheiro, sistemas bancários e as bases de lançamentos da aventura colonial.

Claro que esse processo que eu narro aqui não é uma linha reta, mas é fato que se nem todos os servos conseguiram juntar recursos e se tornaram burgueses, não podemos negar que como Marx descreveu, foram as contradições dentro do próprio arranjo feudal que ofereceram as condições de sua superação, sendo que o eixo principal do surgimento de nova etapa que os transportou até o capitalismo era a criação de uma brutal hierarquia entre os povos que se aproveitavam desta transição, e o gigantesco contingente de pessoas incorporadas a este processo como escravos e povos subalternos (colonizados), a quem pouco ou nada dos frutos desta acumulação eram permitidos.

O grande nó agora, é que o capitalismo atingiu um patamar tão alto em sua tarefa de acumulação, que concentra a riqueza nas mãos de um pequeníssimo grupo, distante dos demais por uma abissal desigualdade.

Novamente sua transição busca "novos escravos" para permitir que a mudança de uma Era para outra se dê sem que os ocupantes das camadas inferiores sejam os atores da superação das condições de exploração a que estão submetidos.

E quem são estes novos escravos?

Todos nós.

Explico:

A definição clássica de escravidão não nos servirá aqui, que consiste em termos rasos como a objetificação da mão-de-obra, associada a restrição ambulatória (impossibilidade de ir e vir), e ausência de remuneração constante pelo trabalho  (trabalho concreto), e portanto, impossibilidade de "escolher" para quem vender este ativo (força de trabalho), e enfim, sujeitos de direitos positivados no estamento e capazes de adquirirem bens e serviços produzidos por eles mesmos.

Porém, se sabemos que a "escravidão clássica" antes se dividia por uma escolha geo-étnica (africanos e nativos dos locais colonizados), a "nova escravidão" se define antes por classe social e pela geografia econômica Norte-Sul (por que não dizer, também geopolítica?).

Dentro dos arranjos nacionais e ao redor do mundo, são as classes pobres e assalariadas indispensáveis de antes, pois eram importantes como regulação de preços de estoque do trabalho, como exército de reserva como mão-de-obra, os novos candidatos perfeitos à condição de nova escravidão.

Na medida em que o PIB mundial da produção e desta "troca" capital x trabalho se esgota, onde o estrangulamento da acumulação capitalista via produção aponta dia-a-dia para uma avalanche global de "não-significação" do trabalho e da sua relação com um capital cada vez mais débil, o trabalho "livre e assalariado" caminha para "retornar" à forma de acumulação que prescinde dele nesta nova estrutura de acumulação.

Se na escravidão, a alienação em relação ao produto se dá antes da incorporação como trabalhador, mas garante a ele como "objeto-trabalhador" chances de manter-se vivo pelo interesse do seu dono em garantir o máximo de retorno ao investimento feito para adquirir este "objeto-trabalhador", na nossa atual "escravidão" esta alienação se dá pela total realização da super-expropriação e da redução da capacidade do trabalho em auferir alguma renda para escapar da mera subsistência, sendo que o "dono-patrão" pouco se importa com a tais condições, pois nada investiu, pois a força de trabalho ("objeto-trabalhador) não custou nada.

Nós que contamos mais de 40 anos, por certo nos lembramos que os equipamentos periféricos para os computadores pessoais (chamados de "desktops") apareceram por um preço proibitivo, até serem popularizados e horizontalizados a preços acessíveis.

Junto com esta diminuição de preços experimentamos o aumento brutal dos insumos (os cartuchos de tinta), que hoje custam tão ou mais caros que tais periféricos.

Este padrão se observa em todos os itens atuais, o que me levou a fazer uma brincadeira: vamos ter que penhorar o carro ao posto para comprar a gasolina.

Este chiste é uma representação fiel do nível que chegamos na organização econômica, onde adquirir os bens de consumo, e/ou os bens de capitais nos custará muito menos que os insumos necessários para fazê-los funcionar.

Outro exemplo: eletrodomésticos e o custo da energia, os preços dos tributos dos imóveis e sua manutenção (taxas condominiais) e o baixo custo dos alugueres que os remuneram, o acesso a tecnologia de telefones e o custo da internet para acessar as plataformas ali contidas, e por aí vamos.

Nestes tempos, há uma quase imperceptível alteração nestas esferas econômicas, onde nós somos sugados para nos transformarmos em ativos, quando nossas remunerações cada vez mais escassas nos impedem se exercermos escolhas que nos diferiam da "escravidão clássica" (para quem vender a força de trabalho, ganhar o suficiente para subsistir, escolher onde morar, etc), e que agora, vão nos igualando àquela condição que eufemisticamente chamam de "condição análoga à escravidão".

Junto, e como relação de causa-e-efeito, as formas institucionais de representação política antes aceitas como meios de pacificação de conflitos e de gestão dos  locus capitalistas,  parecem dissolver frente a frenética liquidez do ambiente político e dos chamados padrões e princípios de organização social.

Esta condição, que para nossa visão míope de classe média parece tão longínqua, é a realidade de 2 ou 3 bilhões de pessoas ou mais ao redor do planeta, e que tem com exemplo mais gritante o chamado "sucesso chinês", cantado e decantado em verso e prosa pelos nossos sacerdotes do mercado e da "mídia especializada" como exemplo, ao mesmo tempo que ignoram a contradição implícita com seus alegados discursos de "liberdade individual" e anti-Estado, já que a China é antes de tudo, uma ditadura rígida.

Não é exagero dizer que estes exércitos de autômatos (principalmente no Sudeste Asiático, mas também presentes em SP, o caso do bolivianos e haitianos) estejam em condições iguais ou piores que escravos africanos do Século XV em diante.

Não lhes falta nem a aplicação de castigos físicos, e talvez mais severos diante da antiga visão pragmática dos senhores coloniais de escravos, que mantinham seus melhores escravos em condições mais dignas que estes trabalhadores atuais, como forma de preservação de seu investimento em adquirir os negros.

Hoje, esta imobilização de capital para aquisição de escravos foi abolida, já que os "novos escravos" disputam ferozmente posições para servirem aos "novos senhores", ou seja, os "novos escravos" são bem mais baratos economicamente.

Não é preciso cruzar mares para sequestrá-los, eles vêm de todos os cantos, e se arriscam em barcos pelos mares, ou já estão por perto.

Outra ponta da nova escravização está aqui, neste blog, na sua rede social, nas suas ou nossas plataformas digitais, onde bilhões de pessoas trabalham diariamente para gerar conteúdo que entregam de graça aos donos destes conglomerados de informação, que ainda garimpam e comercializam, como bônus, todos os aspectos sócio-interacionais dos perfis dos seus "escravos digitais", como preferências políticas, de consumo, de costumes, etc.

Exemplo deste novo mundo: corporações jornalísticas, debatendo-se inutilmente contra o monstro digital que as devora, pediram judicialmente indenizações pelo conteúdo produzido por elas, e apropriado gratuitamente pelas plataformas digitais.

Só nós não percebemos ainda do que se trata: quando o serviço é de graça, o produto somos nós, alguém já disse.

Esta é escravidão muito, mas muito mais complexa e intransponível que a "clássica".

Já que ao que tudo indica, ao contrário do processo de escravização colonial (Século XV e XVI em diante), que buscava a acumulação primária, e depois se esgotou pela necessidade de dotar os escravos de capacidade de virarem mercado consumidor, este novo modelo se prepara para eliminar cada vez mais a necessidade de se abastecer na relação gente e produto do trabalho desta gente, já que parece claro que a gente, ou o ser humano é que será seu principal produto.

É a exacerbação de um modelo que restou na época dos escravos coloniais, quando o tráfico de gente, em algumas economias passou a ser mais importante que a própria economia produtiva em si, como em Campos dos Goytacazes e algumas cidades nordestinas, mas que esbarraram nas barreiras ditas reais e físicas, já que em certo tempo interessou aos centros capitalistas a incorporação destes contingentes então escravos ao mercado de seus produtos industriais, ainda que como incidentes periféricos e subalternos.


Hoje, a auto-suficiência dos planos digitais, anexadas às formas de alavancagem financeira, criando uma grande dimensão de serviços e fluxos de informações daí derivados, revela que a objetificação da Humanidade caminha para seu ápice.


Não há nada de moderno no primitivismo que se aproxima.

Não  há nada de avançado na civilização que se anuncia.


 




terça-feira, 9 de março de 2021

Dr Fachin ou Dr Gilhotin

  



Dr Joseph-Ignace Guillotin e sua mais famosa invenção

Terror foi o nome dado a certo período (1793/1794) do movimento político conhecido como Revolução Francesa, que levou a burguesia daquele país ao poder, após destituir violentamente a nobreza, quando foi realizado um dramático expurgo de mais de duas mil pessoas, que literalmente perderam a cabeça.

Em um ano, os Jacobinos de Maximillien de Robespierre não pouparam quase ninguém, muito menos dentre os antigos aliados, bastasse qualquer dúvida do comprometimento com as causas revolucionárias.

O artifício do poder em criar "inimigos" e governar pelo pânico não era novidade, mas talvez o movimento jacobino tenha inaugurado uma nova forma de veiculação de terror político, se bem que a Inquisição Católica não podia ser desprezada como tal.

O fato é que tal expediente tornou-se cada vez mais comum, com mais ou menos sangue no caminhar da História desde então, mas guardando similaridades de métodos e objetivos, apesar de reivindicarmos que a civilização (ou a Humanidade) "avançou" no quesito resolução de conflitos políticos (de classe).


Longe de mim criar qualquer analogia entre os integrantes do PCC (Primeiro Comando de Curitiba) e os jacobinos, ou elevar estes infames personagens à importância daqueles que mudaram a França e o mundo depois de 1789.

Fiz esta introdução apenas para criar um paralelo entre o nosso terror pós 2016, e a figura do juiz Fachin.




Pode-se dizer, mal comparando, que o juiz em questão criou, com sua decisão de ontem, uma tentativa de tornar mais palatáveis as execuções de biografias políticas, depois de ter compactuado com elas por um bom tempo.

O gesto traz alguma semelhança com as iniciativas do médico francês que deu seu próprio nome a sua invenção.

Porém, as aparências enganam.

Não há qualquer rasgo de humanismo em Fachin.

Enquanto o médico buscava uma forma de minorar o sofrimento, já que questionar o Terror era impensável, o juiz brasileiro foi ele mesmo um dos responsáveis pelas caças às bruxas, que agora ele quer dar um verniz de tecnicidade jurídica.

É um jogo cruel, e que precisa certa sincronicidade política, apesar de não haver muita certeza de controle total sobre os resultados.

Explico:

A decisão de ontem não questiona o mérito das sentenças anuladas, como já sabemos, e as remete ao TRF-DF (1 ª Região), junto com a decisão sobre a validade das provas colhidas quase que em semelhança com as masmorras da Inquisição.

Ao mesmo tempo, Fachin tenta esvaziar o julgamento desta questão em sede de HC na 2 ª Turma do STF, onde sabidamente o resultado não lhe seria favorável, além de que tais votos favoráveis à alegação de suspeição (estima-se que 3 dos 5 juízes daquela câmara) exporiam as entranhas do Judiciário, e o conluio da mais alta Corte do país com o PCC/PR.

Outra questão adjacente, e não menos importante, é criar no âmbito das hostes defensivas a obrigação de legitimar a ação do STF já que a anulação das sentenças lhe foi "favorável", ou seja, mantém Lula refém de um processo ilegal, injusto e desproporcional, e ainda preso aos efeitos do desdobramento deste.

O objetivo não é mais gravar a biografia de Lula com a pecha de culpado, ou de "ladrão".

Pelo menos, essa abordagem não foi suficiente para tolher dele todo seu capital político nacional, influência internacional, e mais, não acabou com o seu partido.

Na atual conjuntura de agravamento das condições sociais, derivadas da gestão ultra-liberal, ao contrário, o capital político do petista só cresce.

Este conceito de culpa do Lula só resiste entre os fanáticos da direita, e outros cínicos que se aproveitam desta tese.

Qualquer pessoa de bom senso, ainda que não petista, e mesmo o mais  empedernido conservador sabe dizer que não houve processo legal algum, logo, a sentença é apenas um ato de violência estatal movida por interesses econômicos e políticos.

De fato, toda sentença é porque só ingênuos acreditam em um poder judiciário que aja à salvo destas ingerências.

No entanto, até para a ação classista e partidária do Judiciário há limites.

Com Lula e o PT todos estes limites foram ultrapassados, desde 2006.

A meta agora com a decisão fachinista é manter o candidato, e talvez o futuro presidente com a lâmina da guilhotina sobre seu pescoço, o tempo maior que for possível, fornecendo esta narrativa à direita e ao centro político.

É bom lembrar aos que desejam que o tempo seja um fator favorável, com a incidência de prescrição (com tempo diminuído pela metade para os maiores de 70 anos), que o TRF-4 (da região sul) julgou o processo de Lula em tempo "nunca antes visto na história deste país".

Nem vamos considerar que se tratavam de eventos de alta complexidade, e claro, sem hipocrisia, da estatura histórica dos personagens envolvidos, e das consequências históricas resultantes das sentenças.

Tudo em fast-justice para tornar o presidente inelegível, e manter intactos os fatos que motivaram sua prisão.

Uma execução sumária dos direitos políticos e ambulatoriais do ex- Presidente.

Na Inquisição havia os Autos de Fé, aquela procissão pública onde se levavam os hereges ao público, que assistia extasiado os suplícios finais no cumprimento das "sentenças".

Antes do cortejo, os inquisidores "ofereciam" aos hereges, dependendo das ofensas que lhes eram atribuídas, a possibilidade de uma morte rápida ou de sobreviverem, desde que confessassem os pecados, heresias, e infrações ao Direito Canônico.

Algo como Fachin tentou fazer agora com Lula.

Se continua a aceitar a farsa processual (e de fato, não tem outra alternativa agora), ele se beneficia da decisão que declarou incompetente seu inquisidor (juiz de Curitiba), sem que questione os atos criminosos (suspeitos) praticados por ele (juiz), pelos procuradores e policiais.

O réu (Lula) confessa seus pecados, mas pode se livrar dos suplícios finais, mas ratifica que os mereceu até então!

É preciso reconhecer que Lula ele mesmo se submeteu a esta tortura institucionalizada, quando rejeitou a possibilidade de se asilar em outro país, ou até mesmo instigar a resistência popular aos atos ilegais do Judiciário.

Mesmo entendendo as diferenças entre a Bolívia de Evo Morales, ou o Equador de Rafael Correa, nenhum líder da envergadura deles e de Lula deveria se curvar a um processo ilegal.

Evo e Rafael entenderam isso, e pouparam suas populações de alguns anos a mais de retrocessos.

Lula não, e ainda sofre de alguns "aliados" o questionamento se ele não deveria ceder seu lugar para que outro herde seu capital político, e ocupe seu lugar na História.

Ao final, cabem as perguntas, ainda que Lula acabe livre, candidato e presidente eleito, e/ou até inocentado pelos atos suspeitos do juiz:

O sistema funciona?

E mais:

Se um ex-Presidente foi vítima de um processo desta natureza, foi preso e julgado ilegalmente por um juiz suspeito e incompetente, o que esperar no tocante ao resto de nós, pobres mortais...?

Justiça?

No Brasil, a imagem da Justiça não deveria ser mais uma balança vendada, e sim uma guilhotina.








 



Quem faz a fama, deita na ca(â)ma(ra)? Um breve momento na Gaiola das Loucas!

  Algo vai muito mal quando juízes e policiais protagonizam política, e pior ainda, quando são políticos que os chamam para tal tarefa... Nã...