quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O mito, o hábito e o círculo.

Acossada pelo ataque midiático recente ("a onda conservadora"), a esquerda mundial parece entorpecida com os avanços eleitorais últimos na Argentina, Bolívia, o rerranjo constitucional chileno, e na provável volta do grupo político de Correa no Equador.

Movimento recente aconteceu na Europa, com a retração de alguns nichos da extrema direita na Alemanha e França, e avanço dos chamados progressistas-ambientais-identitários, só que por lá a euforia foi um pouco mais discreta, talvez pelos humores locais, e/ou talvez pela descoberta de que no capitalismo, o "buraco é sempre mais embaixo".

Daqui de tão longe não dá para saber.

Pois bem, em especial a esquerda do cone sul, justamente aquela que mais sofre com a proximidade do segundo maior país capitalista do mundo, os EUA, que secundam a China atualmente, se lançou a um desvairado surto de auto-estima.

Plenamente justificável, mas já está na hora de recobrar o bom senso, sob pena de incorrer naquela conhecida gangorra bipolar, que nos joga em um estado de depressão política.

Equilibrar as emoções é urgente, primeiro para entender que a chamada "onda conservadora", vendida pela mídia corporativa, agora potencializada pelas empresas de redes sociais, nada mais foi que uma "restauração" ao estado de sempre, ou seja, desde 1789, como já repetimos, ad nauseam, o modelo de representatividade e institucionalidade dos Estados Nacionais SEMPRE estiveram à serviço da conservação do status quo capitalista, sem nenhuma brecha que seja se alternância de poder.

Mesmo com as revoluções de 1917 (URSS) e de 1949 (China), e depois a cubana em 1959, o que sobreveio destas rupturas foi um modelo planificado de mercados, mas com as formas organizativas da produção (trabalho) intactas do modelo anterior, o capitalista, e foi justamente esta a causa principal do fracasso das chamadas experiências de "socialismo real".

No campo político, estas experiências somaram a estas causas econômicas um sufocamento de liberdades individuais, que trouxe um colapso das estruturas sociais, mesmo com enormes avanços reconhecidos no campo dos serviços estatais básicos (educação, saúde, segurança, etc) e altíssimo investimentos e avanços tecnológicos e científicos.

Ao redor disso tudo, o fato de que sobreviver com modelo destes tipos dentro da universalidade e assédio global capitalista era impossível.

Ou seja, o conservadorismo sempre foi hegemônico, e a chamada "onda conservadora", aproveitando as plataformas tecnológicas disponíveis de interação, nada mais foi que a volta à normalidade, mesmo que os chamados governos de esquerda (na verdade, colchas de retalhos de coalizões frágeis) não tenham sequer arranhado aquilo que os conservadores vivem para conservar: o modelo capitalista de acumulação de riquezas.

Mas o slogan "onda conservadora", além de renovar a arcaica agenda liberal (que de liberal só tem o nome, pois vivem às custas do dinheiro do Estado), também dá a esquerda anestesiada a (falsa) impressão de que há uma alternância permanente, que o sistema representativo funciona, e que a saída é por aqui: eleições, alterações constitucionais, etc.

Tudo isso até a próxima "restauração" conservadora (golpe).

Vejamos o caso do PT, no Brasil, que a mídia condenou à "acachapante derrota" pela "onda conservadora".

Vários mitos foram criados, e todos eles tão úteis que perdemos séculos debatendo estas asneiras:

1- Mito dos erros e da auto-crítica: A justificativa para interrupção forçada dos governos de esquerda (corrupção, pedaladas, etc) é sempre exclusiva para este objetivo, ou seja, não valem quando estes delitos são cometidos pela direita.

Os "erros" da esquerda são capitais, enquanto os mesmos erros para a direita são apenas circunstanciais, ainda que os dados estatísticos revelem que a gestão do capitalismo pela esquerda sempre foi mais eficiente.

Logo, a esquerda precisa se redimir do pecado (auto-crítica), renunciando aos métodos da direita (porque só a direita pode usá-los), e que sem tais métodos, a esquerda nunca conseguirá disputar em pé de igualdade, já que os sistemas eleitorais capitalistas são capturados pela enorme necessidade de financiamento.

Como dinheiro não nasce em árvore, e quem financia quer reembolso (there's no free lunch), resta-nos a hipocrisia moralista, que é vitamina para a direita, e veneno para esquerda.

2- Mito da derrota do PT: Apesar de todas as estatísticas eleitorais apontarem a certeza de que o eleitorado fiel ao PT e a esquerda nunca ultrapassou mais de 40% (quando muito), o que se confirmou nas últimas eleições, a mídia vendeu a ideia de "clamorosa derrota", como se não estivéssemos na frente de quadro semelhante desde 1989, quando somados os eleitores de Lula, Brizola, e até de Covas, quando ali o PSDB ainda tinha uma casquinha de progressismo, temos algo em torno de 40 a 45%.

Desde 1982, o PT experimentou o crescimento ou manutenção de sua base parlamentar no Congresso, apesar da crise de 2006 (ação 470) e agora com a farsa-jato em 2014/2018.

Seu pior resultado, agora em 2016, foi no executivo das cidades, principalmente pela debandada dos quadros, que levou a uma retração de candidatos, e não pela derrota eleitoral em si.

3- Mito do anti-petismo: Outro argumento que não se sustenta, tanto pelos números já citados, tanto pelo fato de que não se pode reduzir o ethos conservador brasileiro ao chamado ódio ao PT, já que o antagonismo oferecido pelos conservadores não é a uma legenda específica, mas sim a toda e qualquer plataforma política que apresente propostas de alternância ao modelo concentrador de renda atual, e todas as injustiças sociais que dele derivam.

De fato, vender esta ideia falsa é fácil, porque o PT hegemoniza hoje esta agenda, mas no entanto, todos os partidos chamados progressistas que simbolizem estas pautas sofrerão o mesmo ódio, bem como aqueles que optam pelos chamados movimentos identitários.

4- Mito de que Lula e Bolsonaro são as faces extremas de uma mesma moeda: Este é pretensiosamente mais sofisticado, e nasce de outra vertente canastrona da baixa sociologia (não que eu ache que haja uma de alto nível), aquela que criou a tese do populismo, baseado em falsas premissas e, claro, falsas conclusões.

Reduz os fenômenos de comunicação como acima da História que o justificam (retiram sua historicidade), e denominam toda e qualquer vertente de capacidade linguística de comunicação com grande contingentes de pessoas ("o povo", seja lá o que esta categoria uniformizadora queira dizer) como maléfica e a serviço de um mesmo objetivo: o poder pelo poder.

Ora, dentro de uma lógica, só haveria um poder pelo poder, e é justamente aquele que estrutura um modelo que quer se perpetuar como última etapa evolutiva da Humanidade, O Capitalismo.

Porém, nem aí se encaixa esta definição pobre (poder pelo poder), já que mesmo dentre os conservadores, há relação de causa e efeito históricas nos movimentos de massa (como fascismo, nazismo, integralismo, etc).

Na construção deste "mitos" do populismo, a direita e sua mídia retiram qualquer contexto destes personagens, e simplificam-nos em uma embalagem, para sequestrar a realidade em um aparente dilema:

Para afastar os males dos dois extremos, oferecemos o meio.

Só que este meio termo é sempre uma derivação comportada do mesmo conservadorismo extremado que a direita colocou no poder, justamente com a desculpa que iria combater o extremo da esquerda.

Pois é...um luxo não?

Devia nos interessar menos se Bolsonaro ou Lula falam mais ou menos o dialeto eleitoral das camadas mais pobres, ainda que seja preciso dizer que há uma distância colossal no conteúdo das narrativas entre os dois.

O que interesse é a quem servem estes personagens, em que contexto histórico estão, e qual projeto de poder pretendem.

Me preocupa muito mais que o governo Lula recoloque no comando da Economia um tipo de Palocci, para sossegar a direita e o mercado, e que nisso se pareça muito com o Bolsonaro e seu posto Ipiranga.

É essa questão que está em jogo, quando diz a mídia que os dois são iguais, pois o que desejam é controlar os movimentos políticos dos dois lados, como forma de garantir que com um ou com o outro, ou ainda com algum tipo de governo de centro, a direção da Economia seja a mesma!

São estes mitos que aprisionaram a capacidade cognitiva da esquerda, e que pelas manifestações atuais sobre as vitórias eleitorais no Chile, Argentina, Bolívia, etc., desconfio que não sairemos do lugar.


Olhemos, por exemplo, o modelo dos EUA, para o qual todos os olhos se voltam neste momento de escrutínio eleitoral.

Após duzentos anos, a pauta política por lá toca em tema sensível, que é o colégio eleitoral e a desproporção de representatividade entre os distritos conservadores minoritários e os mais progressistas, que são majoritários, aquilo que eles chamam de gerrymandering.

Junto a este debate, outros acessórios, como financiamento, impedimentos legais para negros, latinos e outras minorias, etc.

Na outra ponta, o candidato à reeleição e sua turba esticam a corda em estilo conhecido, questionam a eleição, e participam dela, justamente para auferir um resultado político importante e manter tensionada a sociedade e um novo governo democrata:

Se ganham os republicanos de Trump, foi porque a força deles superou até as fraudes.

Se perdem, foi porque não conseguiram vencê-las.

Roteiro parecido com o que emplacou aqui Aécio Neves em 2014.

Mesmo nos EUA, onde as discussões sobre representatividade, normas eleitorais e financiamento parecem mais adiantas, a chamada esquerda de lá (parte dos democratas e todos os demais) não consegue enxergar a armadilha, e legitima também o jogo, imaginando que a mudança do sistema eleitoral estadunidense trará alteração significativa nas estruturas de poder, e na impossibilidade de alteração delas.

A esquerda latino-americana, antes de comemorar as vitórias eleitorais (de Pirro), deveria perguntar permanentemente: 

O que nos trouxe até aqui, a esta eterna tarefa de Sísifo, onde a cada vitória dentro das regras, as regras mudam, seja dentro dos limites institucionais, sejam por rupturas (golpes)?

        Como avançar para alterar estruturas de poder, se a cada degrau     que subimos nesta escada, são suprimidos outros três abaixo dos     nossos pés, aumentando a altura do objetivo?

Até quando personificaremos Sísifo?



 


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