quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

"A cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe, e o debaixo desce" (Chico Science in A Cidade).

 





Acho que as ilustrações do Genildo, aí em cima, e do Angeli lá embaixo, são auto-explicativas.

Porém  não custa nada acrescentar alguns pleonasmos à estas poderosas narrativas gráfico-visuais.

O prefeito eleito e recém empossado da cidade de Campos dos Goytcazes cumpre seu roteiro com exatidão e monotonia:

Diz que encontrou tudo arrasado, que lhe resta pouca margem para manobras mais ousadas, e conclama todos ao trabalho árduo, sacrifícios, e claro, ao consenso (chamado de "Paz").

Sabemos todos que estes métodos estão mais para construção de "Pax" a verdadeira pacificação ou  melhor dizendo, na busca por uma diminuição dos conflitos advindos da desigualdade.

O problema central da lógica (?) do prefeito e do seu grupo político, que mais parece uma reedição piorada das gestões de sua mãe, com cacos e escombros da gestão anterior (muito por força dos acordos no Legislativo, é verdade), é que a desigualdade em si não lhes incomoda, pelo menos não a ponto de provocar neles qualquer tentativa de diminuir tal flagelo social.

As medidas compensatórias limitam-se a colocar band-aids em hemorragias.

Já dissemos em outros textos que a tese de que 20 bilhões de reais em orçamento foram desperdiçados é uma tolice, e que por certo, qualquer análise acadêmica, superficial que seja, nas curvas de concentração de renda e pauperização, ou até de uma simples investigação nos cadastros imobiliários da prefeitura em sua base de arrecadação do IPTU, vão revelar o tamanho do abismo cavado com a força de 20 bilhões.

Estranhamente nenhuma universidade ou nenhum analista de desenvolvimento regional (essa piada conceitual de péssimo gosto) se debruçou sobre este tema.

Estranho não?

Pois é.

Então, a cantilena da "crise", da falta de recursos, etc, e etc, podem até conter uma parte da verdade, o que na realidade ajuda mais a torná-la uma mentira inteira.

Sem uma dramática alteração na base de arrecadação tributária da cidade, com a distribuição do ônus maior aos que mais podem arcar com ele (os mais ricos), justamente aqueles que foram os maiores beneficiários do "desperdício" (risos) dos royalties, pouco ou nada a prefeitura poderá fazer.

Principalmente porque este não é um fenômeno local, embora eu até gostasse de colocar toda a culpa nas costas dos grupos políticos e seus sócios que sugaram os orçamentos públicos até as últimas gotas.

Este é um processo global e amplo, quando o que resta de capitalismo de terceira revolução industrial possivelmente vai prescindir de largas multidões de trabalhadores e sub-trabalhadores, com realinhamento dos centros restantes de manufacturas em novos arranjos locais (geografias), que por suas vezes terão que oferecer tamanha exploração das forças laborais residuais que nem se saberá ao certo se vale mais a pena manter tais empregos.

Para quem deseja uma visão do que falo, olhe bem para o Sudeste Asiático e Oriente Média, ou a África.

Vou dar um exemplo, que também serve aos moralistas:

Há um surto de produção, tráfico e abuso (dependência) de metanfetaminas no Sudeste Asiático, Indonésia e arredores, causado pela demanda dos trabalhadores que cumprem 18 horas de trabalho, para obterem um pouco mais de recursos para somar rendas que não ultrapassam 10 dólares por dia.

Metanfetaminas são drogas que mantêm seus usuários em alerta, sem sono, fome ou fadiga.

Não é difícil imaginar que recaem sobre as prefeituras e governos locais todas as demandas de saúde, transporte, segurança, enfim, de toda as infra-estruturas necessárias para suportar estes arranjos produtivos que exaurem trabalhadores, que depois se amontoam nos hospitais, cadeias e transportes públicos.

Seja no Norte Fluminense, seja em Hong Kong.

No caso da cidade de Campos dos Goytacazes, com pouca ou nenhuma dinâmica econômica, e dependente exclusivamente das receitas públicas e dos salários dos servidores que sustentam o consumo e o terceiro setor (comércio de bens e serviços), seria engraçado, caso não fosse trágico, ouvir e ler os discursos de empresários e da classe política dirigente fazendo a população crer que poderão instalar dinâmicas produtivas aqui, e que tais arranjos serão capazes de dotar a cidade de certa autonomia econômica.

Mesmo que isso fosse possível, a instalação destas estruturas por si mesmas não garantiriam nada, senão mais e mais desigualdade e pressão nos serviços públicos, caso fossem mantidas as estruturas tributárias atuais.

Simultaneamente é também cômica a tentativa de apertar ainda mais o garrote sobre os bodes expiatórios preferenciais: os servidores públicos.

O servidor é uma espécie de Geni, boa de xingar, boa de cuspir.

Uma cidade que vive de comércio e quer retrair ainda mais a principal base de consumo parece suicídio. 
E é.

Em pouco tempo, o novo prefeito vai ter que enfrentar outro grande problema.

Sem reajuste há anos, o equilíbrio autuarial previdenciário, que já é quase uma ficção, vai desabar de vez, pois sem aumento das receitas do PreviCampos, já que os servidores que acumulam perdas pagam menos ao fundo, o buraco previdenciário aumentará cada dia mais.

Certas verbas do Governo Federal exigem a certidão de regularidade previdenciária (autuarial), e em breve Campos dos Goytacazes a perderá.

Já aconteceu na cidade vizinha Macaé, inclusive com judicialização da questão para responsabilização do gestor.

Você me perguntará, como fazer?

Eu te respondo fazendo outra pergunta:

Para onde foram a maioria dos recursos de royalties recebidos?

Não, não responda com "desperdício" ou "desvio".

Vamos tentar criar uma ilustração de texto:

Imagine 20 bilhões de litros d'água.

Essa água estava em uma grande cisterna, que enchia todos anos.

Deste cisterna havia dutos da espessura de uma garrafa "PET" que irrigava as casas dos mais pobres, enquanto para as casas dos mais ricos os dutos tinham 2 metros de diâmetro.

Claro que todo este sistema tinha vazamentos no caminho, mas certamente você será capaz de imaginar que o vazamento não é o principal problema, mas sim a distribuição.

Então, está na hora de mudar este sistema de distribuição e fazer com que aqueles que tiveram maior abastecimento, agora paguem a conta dos danos causados por esta desigualdade.

A única chance, e remotíssima, de minorar ou mitigar os danos das alterações estruturais que estamos sofrendo não é com as receitas criminosas de aumento de incentivos fiscais, retração salarial de servidores e cortes em programas sociais.

Ao contrário, é permitir a municipalidade, através do confisco das riquezas concentradas, de adquirir bens e serviços e aumentar o poder de compra dos servidores, criando uma demanda local capaz de dar algum fôlego, ainda que temporário à cidade.


Caso contrário, o desenho aí de cima vai ganhar contornos cada vez mais trágicos e reais.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A salvação da lavoura dos "meninos de engenho".

 



Talvez seja o fato de eu ter sido criado em uma cidade onde a monocultura sucroalcooleira tenha prevalecido como atividade econômica por séculos que tenha me empurrado para a obra de José Lins do Rêgo.

O autor foi injustamente catalogado como "regionalista", justamente pela sua imensa contribuição para a literatura universal ao descrever com rara precisão o locus deste setor agrário e semi-industrial, no caso dele, no Estado da Paraíba.

Apesar de todas as referências serem regionais, as obras associadas ao "ciclo da cana do açúcar", dentre as quais li Menino de Engenho, Usina e Fogo Morto, junto com outras que tratam de outros temas, como Água Mãe, Pedra Bonita, Eurídice, na obra de "Zé Lins" estão todos os elementos universais humanitários: opressão de classes, crendices, superstições e o poder da Igreja, a subordinação cultural imposta aos mais pobres pelos mais ricos, etc, etc, etc.

Fiz esta introdução para tratar de assunto que parecia de "fogo morto" na região da planície goitacá, mas que recentemente ganhou nova força política e de narrativa, a partir de uma engenhosa (re)construção de mitos e imprecisões.

Falo da atividade monoculturista da cana de açúcar, que de tempos em tempos, após sua conhecida decadência local e regional, insiste em se apresentar como "solução econômica" para substituir a outra dependência atual e também decadente, a da monocultura extrativista dos hidrocarbonetos, que legou à cidade e suas vizinhas um oceano de royalties.

Já mencionamos aqui a primeira armadilha discursiva das elites parasitárias da cidade e da região, que infelizmente é reproduzida e repercutida por alguns acadêmicos e outros analistas bem intencionados, dentre os quais não me excluo, porque já comunguei com esta versão:

A do desperdício, a da "gestão perdulária" dos royalties, ao mesmo tempo que imputa à classe política (exclusivamente) a responsabilidade pelo desvio ou o mau uso destes recursos.

Está aí uma mentira contada um milhão de vezes, que parece ter assumido ares de verdade.

Um exame mais complexo da questão (que nunca foi feito) nos diria que os royalties aplicados nos chamados "elefantes brancos", ou em projetos desnecessários não somariam nem 10% dos valores recebidos pelas cidades.

Sim,  isso é um chute.

Ao mesmo tempo é uma provocação para que se faça este estudo, porque os cientistas e analistas políticos também não detêm número algum que valide mais o chute deles do que o meu, diga-se.

Digamos então, de forma exagerada, que foram 50% dos valores ou seja, 10 bilhões de reais empregados em estádios, centros de convenções, passarelas do samba, e outros "coliseus modernos".

Incluamos aí nestes 50% os projetos de segurança alimentar e renda social chamados pelas elites de "populismo".

Não, não, não...eu tenho certeza que 10 bilhões não foram para estes projetos, nem que eu incluísse nas contas os projetos habitacionais.

Então onde foi parar essa dinheirama?

Uai, no bolso das elites locais e outras de outros lugares que vieram até Campos dos Goytacazes e região para sugarem até a última gota, deixando para trás só o ônus, representados em inchaço das cidades (não é o caso da cidade campista, mas sim de Macaé, Rio das Ostras e Cabo Frio, por exemplo), aumento da demanda por serviços públicos, e uma base de arrecadação reprimida pelos tempos de bonança orçamentária, que justamente beneficiou, outra vez, os mais ricos, que deixaram de pagar impostos como deviam.

Nem vou detalhar muito esta análise, porque estudos também deveriam entender quanto de tributos retornaram da aplicação destas verbas indenizatórias (royalties), o que diminuirá em muito a tese do "desperdício", e/ou comprovará que nossa estrutura tributária protege sempre os mesmo: os mais ricos.

Deixemos isso de lado, por enquanto.

Vamos ao fato de que as elites regionais gritam, agora e novamente, que a saída é nossa vocação agropecuária.

Sei...

Como se esta "vocação" já não nos tivesse deixado um rastro de desigualdade, racismo e violência estrutural fundiária desde o século XVI até o final da década de 90 do século XX, quando as últimas usinas de cana-de-açúcar fecharam as portas.

Dados que não podem ser esquecidos pelos defensores da atividade:

Campos dos Goytacazes foi uma das últimas cidades do Brasil a abolir a escravidão, e considerando que o Brasil foi o último país a fazê-lo, estamos na categoria dos últimos do mundo.

Mesmo assim, já em pleno século XX, a cidade e a região mantiveram a forte "tradição" de escravizar gente, figurando como foco importante desta modalidade de trabalho nos cadastros oficiais dos órgãos repressores.

E por que escravizavam gente entre 1980/2000? Faltou dinheiro?

Não, como região fartamente agraciada com incentivos fiscais dos governos militares (talvez porque ajudaram a queimar em seus fornos os corpos dos militantes de esquerda), recebemos milhões de dólares para dinamizar a produção de etanol para abastecer o programa de energia automotiva chamado de Pró-Álcool.

Bem, se dinheiro nas mãos destes "empresários" trouxesse algum bem à cidade e a região, nós seríamos o paraíso na Terra.

Imaginem o paraíso deixado pelas usinas em 1990 encontrando o paraíso do petróleo das décadas seguintes?

Pelo que sabemos, não foi bem assim.

A vocação maior dos usineiros locais, e dos grandes produtores rurais a eles associados sempre foi a pilhagem, a escravização, tudo com dinheiro público, enquanto se auto-elogiam como vanguarda da inciativa privada.

Querem um exemplo?

Na semana passada, 390 mil litros de etanol foram apreendidos na Baixada Fluminense, embarcados em carretas (caminhões-tanques).

A suspeita?

Uma usina da cidade de Campos dos Goytacazes emitia notas fraudadas para permitir a outros empresários usufruírem da redução de impostos, concedida àquela unidade industrial campista como subsídio à produção e geração de empregos!

Ah! Isso é só uma exceção, dirão os defensores do coronelato.

É, talvez.

A julgar pela história de escravagismo e violência do setor, pode ser que crimes fiscais até sejam uma sofisticação excepcional.

Tudo, afinal, é uma questão de ponto de vista.





segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Antes tarde do que nunca? Talvez...

Já dizia Rui Barbosa que justiça tardia nada mais é que injustiça qualificada.

Pode ser...

Eu sempre escrevi que sou contra, totalmente contra a intervenção estatal nos assuntos políticos partidários, ou seja, na tutela do TSE e outros tribunais sobre os processos políticos.

Favor não confundir com um chamado à impunidade, nada disso.

Delitos e irregularidades devem receber atenção administrativa e judicial, mas sem a existência de uma "justiça especial", que comprovadamente, mais legisla sobre eleições que fiscaliza irregularidades, e quando o faz, traz mais instabilidade que estabilidade aos pleitos eleitorais que diz querer proteger.

Dito isso, passemos ao nosso assunto de interesse hoje.

A decisão da próxima quinta-feira, que poderá confirmar ou cassar o registro da chapa do candidato mais votado nas eleições de Campos dos Goytacazes, o herdeiro da dinastia da Lapa, é um destes casos de "justiça tardia".

Digo o porquê:

O singelo argumento do candidato a vice impugnado é um primor, ele que era diretor de um hospital subvencionado por por verbas públicas na maior parte de seu orçamento.

Ora, o candidato diz-nos, e diz aos juízes, que ele não sabia que precisava se desvincular do hospital, e que em outros casos semelhantes, há julgados que garantam esta permanência.

Um assombro.

De tanto usar o cachimbo, eis que a boca entorta.

Anos e anos as empresas de saúde, hospitais privados, todos mascarados em títulos como filantrópicos, sem fim lucrativos, e que tais, misturaram tanto das verbas públicas com seus caixas, que agora eles sequer conseguem enxergar a diferença entre a natureza e origem destes recursos.

Não enxergam também a impropriedade de um diretor de entidade mantida quase em sua totalidade por verbas públicas, ser candidato a algum cargo eletivo, ainda mais quando este cargo terá influência direta na destinação, emprego e fiscalização destas verbas.

Parece "justiça" enfim que ele seja impedido justamente por não entender (ou fingir que não entende) esta diferença.


Mas isso não é um alento.

Os primeiros nomes da equipe do quase-futuro-prefeito, ou prefeito-precário denotam que a cidade continuará sob as botas das mesmas elites.

O viés de desenvolvimento econômico?

Um lojista, desprovido de qualquer olhar social sobre os aspectos de desenvolvimento.

Equipe de transição de saúde?

Médicos ligados a tal rede contratualizada.

Quem sabe agora um dono de empresa de segurança privada para a secretaria de segurança, um dono de supermercado para administrar os programas sociais de alimentação e segurança alimentar, e por aí vamos?

E não se iludam...quaisquer outros dois candidatos subsequentes  (segundo e terceiro colocadas) mais votados iriam pelo mesmo caminho.

Talvez até o PT fosse por este caminho, a julgar a apoio envergonhado dado ao filho do prefeito-Canecão.

Há anos a melhor saída de Campos dos Goytacazes é a BR 101.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Capitalismo uma história de amor. (Legendado)


Michael Moore dispensa apresentações.

Moore não faz documentários, não na acepção estética (e falsa) desta modalidade, que segundo os "diretores" é sempre uma narrativa "neutra", onde o olho da câmera não influencia.

Ai, ai, ai...

Como se desde a escolha do tema não estivesse ali uma influência no objeto a ser filmado, já que nada passa incólume ao olhar, e neste caso, ao registro imagético deste olhar.

Ou como se o objeto (sob registro) não agisse diferente (quando isso é possível) ao ser escrutinado pelo olhar e o registro deste olhar.

Enfim, Moore faz filmes políticos e mesmo não sendo um revolucionário, desmascara algumas falácias importantes do capitalismo.

Expus este aqui porque, se me lembro bem, há uma passagem do ex-presidente Obama, quando ele caga e anda para uma população de uma cidadezinha do interior, que enfrenta uma luta renhida com uma empresa que contamina sua água.

Muita gente diz que a decepção do eleitorado mais pobre (e negro) com Obama retirou os votos necessários a Hillary em 2016, já que este eleitorado se absteve em números significativos.

Claro que as manobras (gerrymandering) republicanas também ajudaram a compor aquele cenário de evasão de votos democratas nos seus redutos.

Só que tais manobras legais-eleitorais não resistem, como vimos agora, a um eleitorado motivado.

Ironia:

O fracasso negro deu azo a Trump, que devolveu o favor agora em 2020, e instigou os negros e latinos (e mulheres) a cassarem seu segundo mandato.

Então, parece bem cômodo para o establishment democrata (tão conservador quanto os republicanos) dizer que os votos de suas bases se esvaem por causa das restrições raciais, ou manobras partidárias nos sistemas de divisões dos distritos eleitorais.

Falta dizer uma parte importante:

O Partido Democrata decepciona a cada dia seu eleitorado mais fiel, aquele que adere às propostas mais radicais e bandeiras históricas, justamente, negros, pobres, mulheres e latinos.

Afinal, se é para votar em uma cópia mal feita dos Republicanos, eles votam nos originais, não é mesmo?

Ou pior, deixam de votar.

Mais ou menos como o Brasil, onde a moda agora é o "centro".

Desejam um sistema político sem extremos, onde tudo se pareça e nada mude.

Hehehehe...e alguns idiotas caem nessa...os frentistas!

Em suma, a rota para "o centro" é a morte da política, ou pelo menos, das possibilidades de se fazer política contra o sistema que mantém 98% da população mundial com uma renda que, somada, não supera a renda acumulada pelos outros 2%.

Por isso é preciso que aceitemos o "centro"...

Mas como existir um centro político no meio desta desigualdade brutal?

Com a palavra, os "equilibristas" ou "frentistas"...

 

Voltando ao filme de Moore, é bom lembrar: 

Foi Obama que mandou espionar Dilma, e começou a destruição da Petrobrás através das feitiçarias de seus Departamentos de Estado e de Justiça.

E a esquerda boçal (leia-se Psol e outros quejandos) bajulando o democrata Biden, e pedindo pelamordedeus que ele contenha nosso psicopata-presidente...

Uai, mas foram eles que ajudaram a eleger o coiso...como assim nos ajudar agora...?

Arf....





quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Origem.

"Ninguém chuta cachorro morto".

"Ninguém joga pedra em árvore que dá bons frutos".

"Quem desdenha quer comprar".

A recente onda de ataques ao PT, que copia tantas outras por sua temporalidade, ou seja, sempre após as eleições, revela, ao contrário do que pretendem, que o partido ainda incomoda.

O teor de fraudes nas análises atuais é tão tóxico, que eu penso duas vezes antes de adentrar este ambiente.

Temos de todo tipo de estelionato analítico, desde os mais empolados, lavrados pelos "cientistas" que sabem o javanês, até outros ditos menos qualificados.

 O resultado é um caldo de senso comum horroroso.

Qualquer imbecil que se dedica a qualquer tipo de pseudo-ciência, justamente aquelas chamadas de sociais, poderá dizer que nenhum fenômeno político-social poderá ser tratado sem um distanciamento histórico que permita um olhar amplo, e claro, uma equidistância (nunca neutralidade) do observador em relação ao seu objeto.

Olhando por números, o PT está aonde poderia estar, dadas as circunstâncias atuais e as escolhas de seus dirigentes.

Analisar o PT requer um esforço mais delicado e um pouco mais de inteligência.

O primeiro erro nas "análises" é confundir PT com os governos que ele participa, geralmente como pólo concentrador dos capitais políticos.

O PT continua a ser o maior partido da esquerda mundial em número de filiados, e sua ramificação pelo país o coloca entre um dos maiores partidos do país.

O PT é uma das principais forças políticas do Congresso, sendo certo que sua bancada na Câmara Federal está entre as três maiores.

O PT desde 1982 experimentou crescimento constante, que só foi interrompido não pela dinâmica das disputas políticas chamadas de normais, mas por um período obscuro de lawfare, golpes e toda sorte de violência simbólica.

Mesmo assim, com seu principal nome preso pelo juiz que iria fazer parte do governo do principal adversário do PT, e agora vai trabalhar para a empresa que "recupera" a empresa que ajudou a destruir, o PT fez mais de 45 milhões de votos para presidente, com um nome de pouca expressão nacional, apesar de ter sido prefeito da capital paulista.

Hoje, nas eleições recentes, o PT manteve seus seis milhões e novecentos e poucos votos auferidos em 2016, apesar de ter sofrido derrotas nas maiores cidades.

A disputa pela hegemonia da narrativa está acirradíssima, e por certo é patrocinada pela mídia, que agora descobriu a mesma pólvora de sempre, os "novos esquerdos de centro", que eu também chamaria de cristãos-novos (como se chamavam os judeus convertidos à força, para não morrerem na fogueira da Inquisição Ibérica, que durou entre os séculos XV e XIX).

Já tivemos Marina Silva, Ciro, Eduardo Campos, Marcelo Freixo, etc, etc.

Toda eleição a direita consagra uma "alternativa" para substituir o PT na interlocução com o eleitorado chamado mais progressista.

Eles misturam ingredientes caros à direita, como pautas identitárias que aplacam culpas pequeno burguesas, certo charme intelectual, e claro, só sobem ao palco se recitarem algum tipo de anti-petismo e suavizarem seus discursos, deixando a "espinhosa" questão econômica para os "sábios do mercado".

Neste espectro, não há uma homogeneidade, claro.

Porém, via de regra, salvo raríssimas exceções, estes quadros políticos se revelaram opções muito mais conservadoras que as próprias concessões que o PT fez para governar o caos capitalista.

Vamos de novo à História.

O Partido dos Trabalhadores sempre foi rejeitado pelas suas bandeiras históricas, e pela sua intensidade política interna, que gerava enorme energia política resultante da fricção de corrente políticas que iam da extrema esquerda da Convergência Socialista e O Trabalho até a direita da Democracia Radical, de José Genoíno. 

Tudo isso equilibrado pelo enorme campo chamado Articulação.

Apesar disso, ou melhor, justamente por isso, sempre renovou seus quadros e arejou seu ambiente externo pela atração permanente de quadros mais jovens, que nesta idade estão mais afetos às teses políticas chamadas "impossíveis" (mas nunca menos importantes), rejeitando a conservação política das moderações e alianças.

Este balanço dava vida ao PT, e o tornava uma experiência original, mesmo em meio a um conservadorismo extremo da sociedade brasileira, que flui e reflui ao sabor dos ventos de expansão e retração das tentativas políticas de dotar este país de um tipo mais ameno de capitalismo.

Em 1988, apesar de seu pouco peso relativo na cena política, e consequentemente no jogo institucional, o PT soube encontrar brechas para propor e mobilizar a opinião pública para inserir alguns tópicos modernizantes no pacto constitucional.

Ao mesmo tempo, cedeu e ajudou a cevar um monstro (nas palavras de Sepúlveda Pertence, jurista que assessorou parlamentares nas questões jurídicas na Constituinte de 88), que atende pelo nome de Ministério Público.

Um erro de cálculo, uma vitória de Pirro que condenou o PT a crescer politicamente na classe média urbana, estruturando sua ação política com a milícia policialesca do Ministério Público, auxiliando na criminalização da política, no denuncismo, enfim, na avacalhação da política.

O ápice desta estratégia equivocada foi o golpe em Collor, que marca a inflexão crucial no período pós ditadura, que une o jornalismo-cangaceiro-miliciano ao recém nascido lawfare, que na época nem era assim considerado.

Por isso repisamos a necessidade de um olhar histórico amplo.

A partir daí, o PT inicia sua jornada de expurgos das correntes mais "radicais", de expansão do "centro", para se mostrar capaz de governar, sem enxergar que deste modo seria governado por quem sempre combateu.

O erro grave, anotem bem, não é compor e aparar arestas dentro de governo multipartidários, com forças diferentes, ideologicamente diferentes.

Nada disso.

O início da agonia petista foi não manter a sua vida interna polifônica, de diferentes espectros, para então levar aos governos que compunha a possibilidade de tensionar as políticas públicas, aumentando assim seu poder de negociação, ao invés de já chegar à mesa diluído e domesticado pelas interdições ideológicas impostas pela direita e seu aparato de controle social.

 Quero fazer uma ressalva aqui, importante:

Não é inédito na História que siglas nasçam e desapareçam, ou se diluam em outros campos políticos.

O PT, como representante de um tipo de classe social e de um momento histórico específico (o trabalhismo pós ditadura) experimenta o desgaste próprio a sua identidade, ou seja, ao envelhecimento desta identidade.

O fim do trabalho como a principal forma de organização social, com o advento do pós-capitalismo que bate às portas, é fator preponderante no abalo das formas de organização políticas e sociais que tinham-no (o trabalho) como referência principal.

Paradoxalmente porém, o PT não encontra dificuldades apenas por sofrer este incidente histórico, mas por não ser capaz de compreendê-lo, e apresentar a única pauta capaz de lhe dar relevância política, ou seja, reagrupar sua agenda anti-capitalista.

É contra esta possibilidade que a mídia e os demais coveiros do PT se levantam.

Sim, porque a domesticação do PT está completa, ou quase, e cabe a pergunta:

Se o PT já está domesticado, por que a direita não o aceita como força política legítima e capaz de gerir o capitalismo?

Ora, porque estas forças sabem que ainda resta algum risco (considerável) de que a enorme capilaridade petista, e sua memória política popular (personificada em Lula) possam recuperar a combatividade para redirecionar os vetores da política nacional e mundial.

A direita sabe disso, mesmo que até o PT não saiba, ou tenha esquecido.

As fraudes da mídia conservadora ficam expostas quando as "alternativas" ao PT sempre têm o mesmo destino: 

Ficarem mais parecidos com a direita, principalmente na aceitação do receituário ultra-liberal, ainda que mantenha algumas questões "morais" no campo da "modernidade".

Este foi, como já dissemos, o fim de Marina, de Ciro, Freixo, e este é o caminho preparado Boulos e Manuela D'Ávila.

O figuro atual da nova temporada fashion politik é edulcorar o "centro".



É uma encenação grotesca, já que olhando de forma honesta, nada se parece mais com o centro que o PT.

O que querem então?

Ora, impedir ou travar qualquer chance de debate que saia dos padrões já estabelecidos, e para isto é crucial aniquilar o PT.

Desde o mais remoto rincão, até as maiores capitais a cantilena da "responsabilidade fiscal", da "crise", das "privatizações" é a mesma.

Nenhum candidato do PT, ou apoiado por ele, saiu destes limites e ousou nada diferente, e junto com tudo isso, nenhum candidato da chamada esquerda ousou atacar os "partidos do judiciário", ao contrário: a disputa é para dizer quem é mais "honesto".



Enfim, o PT não perdeu as eleições de 2020, o PT apenas continuou a se misturar com os conservadores, e neste campo, por óbvio, o PT desaparece, e junto com ele todos os outros da esquerda.

Lembremos que durante o curto período do PT nos governos federais, todas as forças que eram consideradas mais à esquerda não criaram nenhum espaço de tensão para puxar o governo de coalizão para este lado.

Ao contrário, atacaram o governo de coalizão com o mesmo arsenal teórico da direita.

O capitalismo é um sistema que se estrutura na desigualdade, mas deseja sempre a uniformidade dos estamentos políticos, para estabelecer regras que tenham um único objetivo:

Garantir seu funcionamento e sua reprodução.

Não é à toa que todas as vezes que esta equação foi ameaçada, as forças capitalistas patrocinaram golpes que eliminaram ou aplainaram os conflitos políticos e os partidos.

Não é à toa que o ápice da concentração de riqueza mundial (e uma brutal desigualdade) coincida com a derrocada dos sistemas representativos pelo mundo, com a esmagadora abstenção de eleitores.

É disso que se trata.

Eliminar os últimos partidos que ainda ofereçam algum tipo de voz dissonante.

Pouco interessa ao Capital se o nome deste partido é PT ou PXYZ.

A tarefa deles é matar o sonho na origem, matar a ideia, se possível, com a auto-censura da vítima.

Ação sem ideia é mero reflexo.

O Capitalismo é um sistema de reflexos, quando a única ideia é a sobrevivência e reprodução do Capital.

 



terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O céu (nublado) de Frederico.

 



Ninguém duvida que José Cândido de Carvalho é uma das glórias da terra da goiaba.

Apesar das comparações com Sérgio Porto, o indefectível Stanislaw Ponte Preta, de quem o acusavam de ter plagiado o estilo, é certo que o regionalismo da sua narrativa já poderia encerrar esta questão, até porque, o humor e os trejeitos discursivos não são propriedade de ninguém.

O fato é que as histórias de Zé Cândido seduzem pela graça, agilidade e claro, pela fidelidade aos tipos locais.

Sou fã dos dois.

Tão importante a obra de Zé Cândido que nossa Prefeitura Municipal tem por logradouro um de seus personagens mais famosos, Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, da obra O Coronel e o Lobisomen.

Parece loucura, mas eu creio que Campos dos Goytacazes é a única cidade do Brasil que tem por endereço da prefeitura um personagem fictício.

Aliás, poucas obras emprestam seus personagens a nomes de ruas ou outros equipamentos públicos.

Somos quase uma cidade de faz-de-conta. 
Olhando de perto, somos mesmo.

Neste cenário "irreal" é rara ironia que um dos personagens centrais das tramas políticas atuais, o quase-vice-prefeito, compartilhe o mesmo nome de um dos personagens de Zé Cândido.

Há outras semelhanças, como o fato do personagem e do vice-precário serem ligados ao setor sucroalcooleiro, e bem poderíamos dizer que os temperamentos de ambos coincidem na discrição.

As convergências acabam aqui.

Se no livro, o Frederico era um esperto e sorrateiro empresário, que rivalizava com seu parente espalhafatoso (Quincas), na vida real o nosso Frederico é algo perto de uma fraude.

Foi alçado a condição de portador das mensagens e humores das elites canhestras e decadentes locais, o povo da "pedra" (que ironicamente parece viver na "idade da pedra", mas e acha moderníssimo), ou seja, o interlocutor dos bem nascidos junto à "barbárie garotista".

O usineiro seria a "ponte" entre estes dois mundos.

Não foi sequer uma pinguela.

Os resultados na "pedra" mostram uma avalanche de votos no rebento mimado do ex-prefeito Arnaldo Vianna, o que causou um risco real de que o candidato da dinastia da Lapa perdesse a eleição, justamente nas zonas eleitorais que esperava poder contar com o "poder de atração" do seu vice.

Nem mencionemos o já pisado e repisado erro grave do vice-precário ao "esquecer" de deixar o posto de diretor de hospital, o que trouxe impugnação do registro da chapa.

O prefeito-precário, por outro lado, acredita no conto do Frederico, e segue hipotecando-lhe raro apoio e missões bem mais importantes que o acervo do moço em benfeitorias à chapa que integrou.

Esperemos que o céu de Frederico não desabe sobre a cabeça do prefeito-precário.

Por enquanto, não trouxe votos e só criou problemas...mas há razões no amor e na política que a própria razão desconhece.




 


Lá vamos nós de novo.

 Ontem, e desde sempre, eu disse que as perspectivas para a cidade de Campos dos Goytacazes são bem ruins, e o recado do eleitorado, que se absteve em massa da escolha de um dos concorrentes no segundo turno parece refletir o mesmo sentimento.

Eu sou muito afeto a simbolismos.

É fato que há por trás de cada gesto um significado, que de um lado é próprio de quem o pratica, mas assume importância no processo de interpretação daqueles a quem se dirige.

A nomeação da equipe de transição da chapa campeã de votos, porém ainda com situação jurídica pendente, e anunciada pelo prefeito-precário, é um destes gestos que parecem corriqueiros, mas trazem em si uma cadeia de acontecimentos que os antecedem.

Um leitor ou leitora desavisado diria: A nomeação de médicos é um alerta que a saúde será a prioridade do governo.

Pode ser.

Porém, cabe a pergunta, que tipo de "saúde"?

Dentre os nomeados precariamente pelo prefeito-precário estão dois médicos, e um diretor de hospital privado.

Os dois médicos militam, eles também, no setor privado, que no Brasil ganhou o nome de rede contratualizada.

A rede contratualizada deveria ser um mero apêndice, uma rede auxiliar na implementação dos atendimentos do SUS, mas com a pirataria privatista do Estado (lato senso), virou um fim em si.

A exceção virou regra, e quando isto acontece, as regras são sempre para contemplar "exceções" indesejáveis, privilégios e outros interesses menos confessáveis.

Em inúmeros casos, investigações policiais e ministeriais já deram conta de que esta rede concentra vários problemas, e a operação de recursos públicos em tais sistemas privados é, no mínimo, uma temeridade.

Há aqueles que chamam as instituições filantrópicas de "pilantrópicas".

Não é bom generalizar.

Afastemos esta tábula rasa da criminalização policial da gestão pública, e foquemos no absurdo em si que é usar dinheiro público para cevar o setor privado, e pior, para tratar o contribuinte-cidadão igual a cachorro.

Quer dizer, antes fosse igual a cães, pois estes merecem hoje tratamento melhor neste país.

Fica então a dúvida se esta montanha de recursos alocados em redes particulares, além dos subsídios fiscais das deduções de impostos (de renda, das pessoas físicas e jurídicas) que alimentam empresas de saúde, não concorrem diariamente para a destruição do SUS, um dos únicos sistemas de atendimento público e gratuito de saúde do planeta, e se considerarmos o alcance dos atendimentos (qualquer pessoa que esteja no país) e o tamanho da população, é o único do tipo.

É um truque retórico: 

Claro que estes desvios das finalidades dos recursos solapam o SUS, e depois revertem em argumentos para seu desmonte.

Não é errado dizer que as verbas SUS destinadas a tais hospitais servem, principalmente, para ajudar a atender seus clientes particulares, justamente os que podem pagar, que acabam por ser aproveitar dos insumos e bens adquiridos com o dinheiro público.

Assim, quando o prefeito-precário elege como seus principais interlocutores os médicos ligados a este sistema privado de saúde, ele nos diz o tipo de saúde que teremos.

Não é novidade para mim, já que observei que a campanha do prefeito-precário usou como mote justamente as emendas parlamentares liberadas por ele para estas instituições privadas, e nenhuma verba (ou quase nenhuma) para os cofres da Prefeitura, ou para o SUS.

Fica a pergunta, esta de natureza não retórica;

Será que na imensa "experiência" do quase-prefeito-eleito não há nenhum laço ou relação com médicos ou profissionais de saúde ligados a rede pública, funcionários de carreira do setor público, ou ligados às entidades de classe dos trabalhadores do setor, e que sejam pró-SUS?

Ao mesmo tempo, olhando para o papel anunciado para o quase-vice parece que nasce um novo Dick Cheney.

Com uma crucial diferença: Cheney não cometia erros simplórios.

O quase-vice, dublê de usineiro e diretor de hospital, foi aquele que "esqueceu" de largar a diretoria do hospital, sob infantil argumento de que era um momento grave, o da pandemia.

O que nos leva a outras perguntas, e se ele morresse naquela época, o hospital fecharia ou, que gestor é este que não tem delegados ou sucessores?

Então temos duas mensagens do quase-prefeito-eleito:

- A saúde caminha para sua privatização!

- Toda incompetência (do quase-vice) será perdoada, e até recompensada.



PS:

E por falar em emendas parlamentares, instituições de saúde privadas e filantrópicas, eu pergunto:

Onde anda Paulo Feijó?

Que bom ter uma esquerda que briga para que as prisões só aconteçam quando os processos chegarem aos seus termos (finais), não é mesmo?

 

Punitivismo nos olhos dos outros é sempre refresco... 

 


Quem faz a fama, deita na ca(â)ma(ra)? Um breve momento na Gaiola das Loucas!

  Algo vai muito mal quando juízes e policiais protagonizam política, e pior ainda, quando são políticos que os chamam para tal tarefa... Nã...