segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A volta dos que nunca foram...

Gostemos ou não do resultados das eleições municipais, ainda fresquinhos nas páginas de totalizações do TSE e dos TRE, uma coisa é certa:

- Pulularão quinzilhões de análises, e 98% delas com algum comentário ou inflexão que busque uma (nova) derrota do PT e a vitória de alguma novidade eleitoral.

Já é de praxe.

No Estado do Rio de Janeiro, a bola da vez (novamente) parece ser o PSOL, o partido preferido da direita para colocar a colher no capital político do PT.

Com votação quase idêntica à terceira colocada, com 0.03% de diferença, Benedita da Silva conseguiu votação expressiva, se considerarmos as históricas dificuldades do PT fluminense.

Em SP, apesar de Boulos ter sido ungido por Lula como um de seus interlocutores prediletos, desde a prisão, em uma sinergia que provocou até mal estar nas instâncias internas do PT e da candidatura de Jilmar Tatto (que demarcou um importante campo, se aproximando de Russomano), o fato é que não há nenhuma menção a esta circunstância na mídia empresarial.

Há outros exemplos, mas qualquer análise mais detalhada é ainda precária, e sempre será pois: 

Eleição não é um fenômeno que se limita em si, ao mesmo tempo que as ligações entre pleitos estaduais e o nacional guardam particularidades ainda não totalmente decifradas por ninguém, repito, ninguém mesmo.

Temos os pleitos locais mais "nacionalizados" e outros cujas pautas têm como alvos principais as questões municipais.

Nenhum analista até hoje conseguiu determinar o nível de correspondência e influência recíprocos destes fatores.

Porém uma conclusão preliminar aponta no horizonte:

A desesperada tentativa da direita em vestir-se de centro para tornar viável seu projeto de permanência no poder central em 2022, deslocando o eixo político para temas e símbolos caros à esta noção.

Este movimento não é, e nunca foi novidade no país, e quiçá no mundo.

O pós guerra na Europa capitalista não levou ao poder as forças de esquerda que foram usadas como argumento para justificar o apoio da direita "civilizada" ao nazismo e fascismo, ao contrário, a maioria dos países envolvidos entregou sua transição a grupos moderados e de centro.

No Brasil, a cada ruptura institucional pró autoritarismo, e a cada volta à normalidade institucional, emergem as mesmas forças conservadoras, sob inúmeros argumentos, mas o principal dele é a retomada da estabilidade.

Ora, ora, ora...mas se foram estas forças que provocaram tal instabilidade.

Seria cômico se tragédia não fosse.

No Chile a mesmíssima coisa, no pós Pinochet. 

Na Argentina, idem. 

Uruguai, também.

O alerta geral vem da Matriz, os EUA, que apesar de ainda rachados ao meio, indicou que o caminho da filial (nós) deve ser pelo centro.

Pausa para rir:

(risos).

A partir de agora veremos uma corrida maluca para troca de roupa, como uma peça teatral com vários figurinos.



Vamos ao caso particular, a cidade de Campos dos Goytacazes.

Gostem ou não seus detratores, a eleição atual só confirmou o que já se sabe faz tempo:

O garotismo é a única forma de movimento político orgânico no município, inclusive é a única referência para os que dizem ser seus adversários.

O recém triturado prefeito passou 4 anos sem governar, falando do governo anterior (da esposa do Garotinho).

Ao mesmo tempo, o grupo emergente dos Bacellar idem, isto é, só existe como tal pelo antagonismo ao cacique da Lapa.

O candidato-filho do ex- Prefeito Arnaldo Vianna, ele mesmo cria da Lapa, é outro exemplo de que não há nenhuma vida política para além dos limites do garotismo na cidade, pelo menos não até agora.

O PT é o caso mais triste de todos, porque nem conseguiu elaborar uma plataforma anti-garotista eficiente, ficando como a pior versão daquilo que já é muito ruim, ou seja, um projeto político que tem como única referência um personagem específico.

É claro que não se trata de culpar "A" ou "B".

Até porque não podemos ignorar o peso de uma liderança que foi Governador de Estado, elegeu sua esposa no primeiro turno como Governadora (totalmente desconhecida, na época), e depois prefeita, e tem dois filhos eleitos deputados federais.

O projeto político que seja alternativa a tal fenômeno não passa por minimizar tais efeitos e repercussões, como uma espécie de "autismo político".

Porém é preciso não lhe dar uma dimensão maior que já tem.

É uma equação nada fácil, mas ela surge como ingrediente principal da política (lato senso), que é (ou deve ser) a expressão real da nossa capacidade de imaginar cenários e de fazer estas projeções se tornarem realidade.

O PT abdicou desta capacidade em nome de um pragmatismo que também não sabe operar, e que ao contrário do que se possa imaginar, nunca foi adversário ou oposto desta capacidade de abstração política...nunca.

É justamente esta capacidade de conceituar a realidade que reforça qualquer traço de pragmatismo político, e não o contrário.

Para o combate do garotismo é necessário entender seu apelo, e criar linguagens que concorram e/ou substituam este projeto de poder, a partir de ousadas formas de fazer política, mas que não têm nada de inéditas.

Enquanto tentar vocalizar nesta cidade seus anseios pelos mesmos meios do garotismo, ou através de outros meios (a mídia local, por exemplo) que detêm nenhuma (ou pouquíssima) legitimidade, o PT vai seguir falando sozinha:

Sem ser o porta-voz das elites (que odeiam o PT), e sem comunicar com a população mais pobre, que não entende o PT (enquanto alguns também odeiam-no).

Um exemplo?

A ótima votação de José Maria Rangel, quase 3.000 votos, e nenhum coeficiente eleitoral para o PT, o que lhe ceifou a vaga na Câmara de Vereadores.

Portador de uma narrativa estritamente corporativa, até quando falou das soluções para cidade, ficou restrito a um nicho, e parece com um artilheiro que fez 50 gols no campeonato, mas viu seu time ser rebaixado.

Parecia candidato a presidente do Conselho Deliberativo ou Administrativo da Petrobrás.

Certamente teve apoio de bastante gente, mas e daí?

Rangel não veiculou em nenhum momento nada mais que os velhos chavões sobre os "desvios dos royalties", e sequer foi capaz de verbalizar o óbvio:

O dinheiro encheu as burras das elites, que agora nos vendem a conta do saque como "crise".

Este era o principal diferenciador do PT ao longo de toda sua história, a capacidade de dizer coisas incômodas, e de propor os "debates chatos", mas imprescindíveis, e que trocamos pelos "lugares-comuns" reverberados pelo mau caratismo midiático e pelas fraudes acadêmicas.

Em Campos dos Goytacazes viramos a cópia-carbono de um anti-garotismo hipócrita, já que todos os segmentos principais de oposição à ele, uns mais outros menos, se beneficiaram das políticas públicas do pessoal da Lapa.

Até o clã dos Bacellar se fortaleceu politicamente na gestão Mocaiber, outra cria menos bem sucedida ("poste") do garotismo, como Sérgio Mendes e outros ressentidos.

Por isso Rafael Diniz naufragou feio, porque foi totalmente incapaz de entender que a suposta rejeição ao garotismo que o elegeu só se tornaria capital político perene se ele apontasse em outra direção.

Mas qual, sendo ele um  político da direita encarnada?

A escolha por temas fiscais e de "gestão" foi um desastre, e sempre será, porque são falsos, sempre falsos, quando a hierarquia de interesses protegidos por sua administração (e tantas outras administrações que reivindicam tais premissas) já mostrava as caras desde o começo.

Por outro lado, repetimos que derrota de Rafael não é só dele.

É do principal grupo de mídia que foi seu principal fiador e mentor, e que agora vai se reorganizar para tentar embarcar em outra aventura, a do filho do ex-Prefeito Arnaldo Vianna.

Dirão que a única novidade é a Professora Natália.

Também não é.

Ela herda o espaço político da esquerda, algo que sempre ficou entre 5 e 10% organicamente, que algumas vezes ultrapassou este limite, e em outras recuou.

Luiza Botelho, Odete Rocha, Luciano D'Ângelo são nomes que autorizam esta conclusão, ou seja, de que sempre houve um portador deste patrimônio eleitoral.

Apesar do desdém da direita, manter este nicho em uma cidade com os traços de Campos do Goytacazes não é pouca coisa.

Para começar a nova caminhada, um passo essencial é a definição de apoios no segundo turno, seja com Wladimir e Caio, seja em outro cenário pós impugnação de Wladimir.

A esquerda campista deve se abster totalmente de participar desta "festa", porque ali nada lhe diz respeito.

Sempre tendo em mente o adágio:

Melhor ser cabeça de mosquito que rabo de elefante.


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

A Hydra semiótica: saliva, pólvora e a "guerra" entre ciência e política...

 


Desde ontem à noite até hoje pela manhã, quando assisti as versões noturna e matinal dos programas de notícias da Rede Globo, o JN e o RJ 1, respectivamente, fui tomado por um sentimento de completo desalento.

Explico:

Apesar de saber há muito tempo que não se deve esperar nada da empresa do bando Marinho, o fato é que às vezes ficamos paralisados diante da profusão de frentes em que temos que combater.

A mitologia grega é rica em imagens deste desespero humano, diante de sofrimentos e problemas que se realimentam e nos ameaçam.

Temos a figura de Prometeu acorrentado, que tem seu fígado devorado e regenerado todos os dias.

Temos Sísifo, que carrega uma pedra morro acima todos os dias, para vê-la desabar e ter que recomeçar sua sina.

E por fim, temos a Hydra, cuja extinção era uns dos trabalhos de Hércules

A cada golpe do semideus, uma cabeça era decepada, e ao mesmo tempo se regenerava.

É o mito que mais me agrada, porque, ao menos, ele oferece uma saída:

A força de Hércules era inútil, e foi pelo conhecimento que ele descobriu como exterminar o monstro, ou seja, o fogo (simboliza o conhecimento na mitologia grega) era capaz de calcinar o pescoço decapitado, impedindo o surgimento de nova cabeça.

A esquerda brasileira e mundial parecem não enxergar que não adianta decepar as cabeças que simbolizam (representam) a Hydra capitalista, pois elas se regeneram.

É preciso fogo (conhecimento) para dar fim ao bicho.


Ontem à noite o JN dedicou boa parte de seu tempo a expor as bizarrices do presidente, e as respostas e repercussões em todos os níveis de governo, passando pelos "cientistas"  e outras vozes que a empresa de comunicação utiliza para dar alguma legitimidade ao seu discurso.

Não se debate aqui o que disse o presidente, se festejou ou não a morte de alguém como um ponto a favor de suas intenções políticas e disputas com o pretendente ao seu cargo, o governador paulista, que já foi seu aliado.

O que mais me assombra e desanima é a reação proposta (e aceita) por boa parte daqueles que se dizem portadores da luz (fogo) do conhecimento.

A narrativa predominante (inclusive em blogs progressistas, como o Blog do Nassif) é de que há uma guerra entre a política e a ciência.

Santo Zeus, aonde vamos parar?

Nem sei por onde começar, mas vou tentar.


Não há ciência sem que seja movida por interesses políticos e econômicos, geralmente recíprocos,  que resultam em decisões das esferas de poder, por suas vezes, movem as "razões" científicas.

A propagada "guerra" entre ciência e política não é verdadeira, ao menos não como publicaram.

Não existe uma hierarquia em disputa entre a virtude científica, sempre equilibrada e racional, e a barbárie política, sempre egoísta e auto-centrada em mesquinharias.

Tudo isso está misturado, e pasmem, a serviço de interesses que nada têm de "equilibrados" ou "neutros".

Se a ciência fosse "neutra", ou portadora de alguma racionalidade "neutra", e portanto benéfica (enquanto a política é sempre vendida como algo "mal" em si), por que não temos a cura da malária, da Zika, da dengue, ou vacinas para tais doenças?

Ora, porque não há NENHUM INTERESSE ECONÔMICO QUE MOVA A CIÊNCIA a procurar soluções para atender a parte mais pobre do planeta.

Além de serem doenças de "pobres", que não têm recursos para bancar a remuneração dos custos de pesquisa (embutido no preço dos medicamentos ou vacinas), há uma série de decisões econômicas e geopolíticas que determinam que alguns produtos são viáveis, e outros não.

Vou mais além, por que a ciência arranjou a "cura" para a disfunção erétil, enquanto não descobriu a cura do câncer?

Claro que sabemos que são questões bem distintas, mas fica a pergunta:

Quem determina estas categorias de prioridade?

O bem comum?

Nunca, pois são antes decisões de caráter econômico, de avaliação global de retorno e por mais cruel que pareça, de manutenção dos fluxos globais de gastos dos sistemas nacionais de saúde, e dos pacientes, e da capacidade de cada uma destas instâncias em absorver tais custos.


Se a ciência fosse esta coisa virtuosa e asséptica, por que os laboratórios não se uniram em um grande mutirão internacional, compartilhando os avanços de cada grupo de pesquisa pela vacina, acelerando o tempo de desenvolvimento e teste?

Por que tais informações são guardadas com rigor parecido àquele que protege senhas nucleares nas mãos de Trump, Putin, etc?

Quando ouço que a "ciência" é algo que pode estar a salvo das injunções cotidianas e da historicidade, eu confesso: dá vontade de chorar.

Ciência neutra é um tema caro à...à...isso mesmo, ao fascismo, ao nazismo.

Tais modelos que sempre imaginam poder usar a ciência como justificativa para "igualar" em patamares de maior eficiência biológica os seres humanos, em uma espécie de darwinismo-biológico-social, usando a falácia da "neutralidade científica" ou "neutralidade natural" da nossa demanda por eficiência evolutiva.

Sim senhoras e senhores, ciência sem política é ciência sem ética, ou pior, como mostramos acima, com uma ética própria.

Deste modo, por que não permitir a ciência, em nome do "bem" da Humanidade, desenvolver pesquisas genéticas (se já existem) para criar espécimes humanas imunes à doenças, resistente a cansaço, que consumam poucas calorias, etc, etc, tudo dedicado a dotar-nos de maior eficiência produtiva?

O enorme risco de termos pessoas como o Bolsonaro na condução representativa dos interesses do Capital, iludindo-nos de que ele é apenas uma distorção passageira, é quando passarmos ao combate à ele usando a mesma irracionalidade.

Quer dizer, uma irracionalidade ainda pior, porque a irracionalidade autoritária dele é calculada, portanto não é irracionalidade alguma.

Já a nossa é burrice mesmo, já que não sabemos que estamos a replicar o ambiente de ruídos que nos torna surdos às nossas próprias vozes, à nossa racionalidade.

Bolsonaro e Dória são meros garotos de recados das grandes empresas farmacêuticas globais, que já nos depauperam diariamente, seja com a máfia dos antibióticos, seja com a máfia das patentes, com aliciamento de médicos através de esquemas de propagandistas, seja, enfim, pelo sequestro da pesquisa acadêmica (CIENTÍFICA), já que boa parte das mais avançadas universidades do mundo não sobrevivem sem os trilhiardários recursos destas indústrias.

No outro canto, temos as bravatas do presidente, com metáforas diplomáticas sobre diálogo, dissuasão e enfrentamento.

Engraçado que ao falar de saliva e pólvora, o presidente corre o risco de dar a piada de bate-pronto para seus detratores, já que saliva também é metáfora para lubrificante em relações sexuais, ou seja, parece que nosso país exige ser "violado" com algum lubrificante, e não à seco.

Bem, olhando por este prisma, a fala dele faz até algum sentido, e acaba por resumir toda nossa história diplomática, isto é: sempre fomos obedientes ao Tio Sam pela "saliva", ou "no amor" (na linguagem cara aos narcomililcianos).

Nem os presidentes chamados de esquerda escaparam a essa lógica, diga-se.

Na verdade, o que disse o presidente, apesar de tê-lo feito pelos motivos errados, ou seja, defender sua política ambiental devastadora, corresponde à uma demanda nacionalista, que até bem pouco tempo nos foi muito cara, ou deveria ser.

Presidente do EUA não deveria opinar (nem outro de qualquer lugar) sobre como preservamos ou derrubamos nossas florestas.

Principalmente sendo os EUA um exemplo negativo neste sentido.

Para os vira-latas que balançam o rabinho para GI-JOE Biden, é bom lembrar que foi na octaéride obamista que a NSA grampeou Dilma Roussef, e começou sua escalada para destruir Petrobrás e toda a cadeia produtiva do petróleo.

Ao mesmo tempo, Obama atacou nossa indústria de defesa (Odebrecht, em sua ramificação tecnológica-militar), que preparava o modelo de contenção militar do Atlântico Sul com emprego de submarinos com propulsão nuclear, equipamentos imprescindíveis à defesa de petróleo e gás em águas profundas.

O desmonte da EMBRAER, que criou e colocou no mercado o KC-390, substituto do Hércules C 130, da estadunidense Lockheed.


Enfim, todo este quadro e a nossa reação me traz um desânimo profundo, um pessimismo estrutural, que reflete minha descrença na mais remota chance de reação intelectual ao que estamos vivendo.


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Rafael, o arcanjo caído...

 




Na busca por algum mote para tratar o completo fracasso eleitoral do atual prefeito de Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz, lembrei-me da origem de seu nome, e claro, socorri-me na Wikipedia, como vocês podem ler aqui. 

Há, de acordo com o texto, três denominações para Rafael nas mitologias monoteístas mais conhecidas (judaico-cristã e islâmica).

Certamente nosso prefeito prefere a primeira, a cristã, não só por uma questão de origem e cultura familiar, mas por conveniência, já que para cristãos e judeus Rafael é o anjo da cura.

Essa imagem convergia com a sua pretensão, quando candidato, de resolver todos os problemas da cidade.

Este sentimento seria uma arrogância saudável, caso não fosse totalmente desprovida de qualquer ligação com suas verdadeiras intenções, que agora são "vendidas" pela mídia como meras "incapacidades", ou "erros" passíveis de breves correções.

Ao final de quatro anos de governo, em uma inédita situação de não-reeleição (não me recordo qual prefeito não se reelegeu desde que a possibilidade foi criada), precisamos dizer ao Rafael que a sua definição está mais próxima daquela do Alcorão:

- Rafael (ou Israfil) é o anjo do juízo final, aquele que toca a trombeta anunciando o fim!

É preciso dizer também que Rafael Diniz é vítima de uma cruel injustiça, e não que ele não mereça, mas o fato é que atribuir a ele toda e qualquer responsabilidade pelo desastre é de uma covardia atroz.

Rafael Diniz é resultado de um fenômeno ainda não bem explicado, tanto pelo pouco tempo, que dificulta um olhar de amplitude histórica, quanto pelos interesses de cada lado que propõe a análise.

Temos os nossos, claro, e o raro (a) leitor (a) raro (a) que passeia por aqui sabe nossa posição de antemão: 
Somos, desde a mais tenra hora, oposição completa e irrestrita ao atual prefeito e sua entourage.

O fato é que podemos simplificar Rafael Diniz como um prefeito que se elegeu dentro da narrativa recente que ajudou a alavancar o atual presidente da república, ao mesmo tempo que surfou nas possibilidades do lawfare local, que pode ser entendido como as ações judiciais e policiais direcionadas quase que especificamente a um grupo político (o da Lapa).

Também não se pode desprezar o uso intenso do esquema Cambridge Analytic, que mescla psicometria e disparo de mensagens pelas plataformas digitais aos eleitores (robôs tocados por algoritmos).

No entanto, reduzir a apenas estas instâncias não conta tudo sobre o anjo do juízo final.

O atual prefeito montou sua equipe com uma inédita influência de certo grupo de mídia local, ao mesmo tempo que reuniu alguns quadros da chamada intelectualidade acadêmica, enquanto contou com a "compreensão" de todos os setores do judiciário e do MP, que "generosamente" pareceram lembrar do princípio da presunção de inocência, ou para outros, da não-culpabilidade.

Ufa, antes tarde que nunca, embora Rui Barbosa diga que justiça atrasada nada mais é que injustiça qualificada.

A cidade parece ter virado um oásis, e nenhum contrato, compra de bens ou serviços, nenhuma licitaçãozinha sequer foram alvos de quaisquer escrutínios mais severos dos órgãos de fiscalização.

Nenhuma reclamação dos vereadores de oposição mereceu qualquer atenção mais dedicada, nenhum espaço comparável ao que acontecia antes.

Neste sentido, eis o primeiro milagre do "arcanjo" Rafael, pois que "curou" a cidade do protagonismo judicial e policial na política.

Quatro anos depois, apesar de ter vendido a imagem de que seria a solução para todos os males (como a definição do anjo cristão, a "cura"), Rafael descobriu que não dá para administrar uma cidade com a "merreca" de R$ 1,7 bilhão.

Ainda que portador da mensagem divina, e gozando da proximidade com Deus, Rafael não foi capaz de pedir ao Senhor para multiplicar os pães orçamentários.

O milagre não aconteceu mesmo com o beneplácito de toda a mídia (os vendilhões do templo), dos órgãos fiscalizadores (os pretorianos de Roma), e mais, junto com a propalada sinergia com os "sábios do Templo", aqui os intelectuais do "pólo acadêmico-universitário" (só pode ser piada chamar as instituições privadas de formuladores de algum pensamento crítico, quando são meras entregadoras de diplomas a preço certo).

Passemos das metáforas para a frieza dos números.

Consideremos Campos dos Goytacazes com 500 mil habitantes, com número redondo, pois se há uma população flutuante que chega para somar, há também aqueles que ainda que vinculados estatisticamente à cidade, passam boa parte do tempo fora, e usam serviços de outras cidades "conurbadas", como é o caso de Macaé.

Peguemos este número, e usemos para estabelecer a razão com o orçamento que o prefeito reclamou ser insuficiente:

Para cada cidadão da cidade terá R$ 3.400,00/ano para tratar das suas demandas, ou quase R$ 300,00 reais/mês.

Tal valor é muito mais elevado que boa parte dos Estados do Norte e Nordeste (talvez até do Centro-Oeste).
Repito: maior que o orçamento per capita destes Estados!

Vamos analisar o orçamento do Estado do RJ, que você pode acessar aqui. 

Algo em torno de R$ 85 bi, divididos para uma população de cerca de 16 milhões de habitantes.

(Nota: justiça seja feita, nos cômputos orçamentários há subtração de gastos previdenciários, e outras despesas, como serviços de dívida, etc, o que vale também para a LOA de Campos dos Goytacazes).

Mas para efeito de comparação, consideremos o montante geral, e obtemos algo em torno de R$ 5.300,00 per capita/ano, ou R$ 440,00 aproximados por mês/per capita.

Ou seja, a "merreca" de Rafael é mais da metade do Orçamento do Estado do Rio de Janeiro inteiro.

Tirem vocês suas conclusões, porém me permita as minhas:

O desastre de Rafael é o desastre das elites campistas, quer dizer, não é desastre, pois é dolo dirigido a aprofundar a desigualdade e concentrar riqueza (ou o que sobrou dela) nas mãos destas elites e seus sócios, enquanto adjetivam este saque descarado de "crise".

É um modelo de gestão. Um conceito levado à prática.

Rafael, já mencionamos, teve o beneplácito da mídia (que compôs uma parte dos cargos de seu governo), a domesticação da Câmara de Vereadores, a "amizade" do Judiciário, e a "tecnocracia iluminada" de setores da UENF e outras faculdades tipo caça-níquel.

Contou com um consenso, fabricado é verdade, de que era a hora da alteração das relações de poder com aquilo que ele auto-denominou de onda da mudança.

Teve o benefício da dúvida concedido pelos algozes dos grupos políticos anteriores (Justiça e Polícia).

E nada.

Bem pouco tempo após eleito, quando parecia ser incapaz de passar do palanque, e fazer a transição e enfim, governar (como no caso da merenda que chegou quase no segundo semestre do ano letivo de 2017), eu disse que Rafael parecia aquela criança que ganhou um brinquedo inesperado, e não sabia o que fazer com ele.

Seria mais fácil "perdoar" Rafael se fosse só isso.

A bem da verdade, não foi só uma questão de incompetência, ou da pueril "incapacidade" de sair do gabinete (na versão atual da mídia para explicar o fracasso de seu prefeito de estimação).

Foi uma direcionada escolha política, que continha em seu bojo:

Severidade fiscal e de arrocho social, desmonte dos serviços públicos, insensibilidade anti-política, enfim, uma espécie de mini-governo federal.

Com este desempenho, Rafael Diniz é sério candidato a virar ministro.

Que seja, e ele, que de anjo ou santo nada tem, que vá para bem longe tocar a sua trombeta do Apocalipse.





 



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Santa estupidez, Batman!


Trump, o verdadeiro Coringa?



Cesar Romero como Coringa.




 Quem tem um pouco mais de 14 anos como eu, e conhece a mitologia dos quadrinhos estadunidenses, e/ou acompanhou as montagens cinematográficas recentes do Batman que têm como subtítulo Cavaleiro das Trevas (Dark Knight, livremente inspirada na série de quatro fascículos impressos, graphic book, de Frank Miller), vai ter mais facilidade de entender as associações deste texto.

Porém mesmo que não tenha interesse por esta cultura pop, poderá, ao ler, enxergar que a questão que emerge da recente eleição dos EUA ultrapassa em muito a boa e velha divisão do mundo em bandidos e mocinhos, narrativa tão cara à da mídia comercial, ela mesma coadjuvante que se debate todo o tempo para roubar a cena principal nos eventos da História.

O filme de Christopher Nolan, com Christian Bale no papel principal, secundado pelo insuperável Heath Ledger como Coringa, os limites do surrado argumento de que o vigilantismo se justifica pelo grau de maldade oposto pela vilania alcança outro nível de sofisticação.

Várias interpretações do filme ganharam corpo, e por certo nenhuma delas conseguirá apreender por completo qualquer mensagem política subliminar, porque seus criadores sempre responderão com o óbvio: trata-se de entretenimento.

Fato.

Mas se ideologizar a chamada "arte" é um "erro" (não na minha opinião), deixar de historicizá-la é outro ainda maior, ou seja, as abordagens do personagem com o hilário Cesar Romero como Coringa, e Adam West como Batman, até a mais recente com Joaquim Phoenix, possibilitam uma leitura correspondente do momentos históricos onde estão inseridas.

A mídia, no entanto, parece incapaz de sair da década de 50/60, e segue na repetição da reificação do pânico comunista na esquerda (?) pré keneysiana.

Como sabemos, a atual reexibição de antigos medos é patrocinada pelos empresários dos conglomerados globais de comunicação, e aproveitada pelos Cruzados do Reino de Q Anon, ou a Ordem de Steve Banon.

Foi justamente nos EUA, santuário dos sabujos da mídia (teve até um tal de Waack que ficou conhecido por "aconselhar" a CIA, em passado recente), que o universo pareceu mostrar suas entranhas mais assustadoras, como a boca do precipício, bordas de algum  buraco negro.

Não senhores e senhoras, os EUA nunca foram e nunca serão uma Democracia.

Não senhores e senhoras, Democracia e Capitalismo nunca caberão no mesmo espaço ao mesmo tempo.

Não, senhores e senhoras, o Capitalismo não é um sistema harmônico e pontuado por crises cíclicas, que podem ser superadas por algum tipo de racionalismo democrático ou institucional, que tornam suas estruturas melhores e melhores, ao mesmo tempo que nos melhora com ele.

É justamente o contrário.

A piada última da mídia, digna de Coringa, contada pelos lacaios da mídia foi a suspensão ou interrupção de Trump pelas redes nacionais de TV nos EUA (hoje chamada de "cancelamento" pelos mais jovens), enquanto ele vociferava contra as chamadas "instituições".

(risos).

Ora bolas, e quem deu espaço para o "clown sombrio" falar durante quatro anos barbaridades ainda piores?

Silêncio.

Nossos valorosos jornalistas tentaram nos dizer que um sistema político onde barões de mídia decidem quem, quando e o que será dito é a "normalidade".

(risos).

Junto com esta piada ruim, contam outra: 

Trump é um ponto fora da curva, um resultado de maus humores eleitorais, e alguns arriscam até a dizer que foram as "causas identitárias" que nos trouxeram até aqui, pois cristalizam ódios que alimentam o monstro autoritário.

Uma dupla mentira e perigosa.

Sim, os movimentos autoritários (do Capitalismo) instrumentalizam e fomentam seus ódios a partir das plataformas de luta setoriais (identitárias), sendo que elas mesmas têm muita dificuldade em enxergar a totalidade do quadro onde estão inseridas.

Mas responsabilizar o oprimido pelo aumento da repressão e da violência sofrida é como negar a quem tem fome o alimento, para incentivá-lo a enfrentar as causas estruturais e anteriores da sua carência imediata.

Ou seja, senhoras e senhores, a responsabilização pela escalada violenta e autoritária não é de negros e mulheres que não conseguem ir além nas suas pautas, mas sim daqueles que usam essa miopia para aumentarem o alcance e o poder de suas ferramentas autoritárias para manterem o poder (capitalista), até porque o sistema (capitalista) que desejam perpetuar é, per si, violento e excludente, seja com negros, mulheres, gays, pobres, e todos aqueles que não sejam donos do capital.

No filme, o Coringa tenta mostrar aos outros vilões (mafiosos, e suas facções) que ele é a única arma possível (caos) para combater a chamada "normalidade", onde um morcego restaura e mantém a "ordem" (que ordem?), e enfrentou a descrença e resistência deles porque todos estavam atados a ordem "normal", quando o crime tem por causa a demanda por dinheiro, funcionando como um sistema paralelo e marginal à "normalidade", cujo combate era dado pelo morcego mascarado, que entendia esta relação de causalidade (crime e dinheiro).

O Batman é então um remédio que só surge como resultado de um sistema geneticamente distópico, onde tanto se ganha dinheiro matando pessoas por inanição, guerras, interesses geopolíticos, quanto pela atividade violenta (strictu sensu) criminal.


Assim como o Coringa só faz sentido em uma (des)ordem onde um justiceiro vestido de morcego é aceito, e necessário diga-se, (serão as nossa togas?) Trump é a encarnação da face mais realista do modelo implantado com maior sucesso nos EUA, que tem por "lógica" a concentração brutal de riqueza, enquanto outros bilhões permanecem excluídos da menor chance de subsistência.

Isso não é uma loucura? 

Pois é...

O Coringa, Trump, Hitler, Mussolini, Bolsonaro, Franco, Salazar, Generais, etc, são a sincera expressão do funcionamento de uma sociedade que tem como normal a manutenção de uma "ordem" sempre injusta e caótica!

Todo o sistema chamado de institucional, todas as formas de representação, todas as formas de sociabilidade estão subordinadas à este tipo de "darwinismo social totalizante".

Os ingênuos (e outros tantos cínicos) imaginam que algum Comissário Gordon ou Alfred (que bem poderiam ser vividos por Joe Biden) poderão, com suas noções de ética democrática, superar a essência caótica do Capitalismo, ajudados por um mascarado vestido de morcego, ele mesmo portador de suas próprias regras.

Neste sentido, a maquiagem sempre bizarra do palhaço assassino seria sempre tão ou mais crível que a máscara do morcego, pois se ele simbolizaria que a luta pela justiça acontece nas sombras, de forma anônima, pois a luz do dia o Estado de Direito está podre, o mal encarnado pelo Coringa é sempre apresentado como uma distorção, uma disfunção quase lúdica (cômica), mas ainda assim letal.

Não é tão simples assim.

Batman é a noção vingativa da justiça, que procura algum vínculo de causalidade entre o que faz, e o que o move (código moral),  que sempre esbarra em algum tipo de limitação para realizar-se completamente (Batman não mata, nem usa armas de fogo), o que na sociedade estadunidense armada até os dentes, e legatária do seu mito fundador, o Far West o transforma em uma exceção paradoxal e...falsa.

Como falsas são nossas instituições de Justiça e todo o resto que buscam algum tipo de justiça ou representação isonômica (chamada de "igualitária"), porque residem e se significam em um sistema sempre hierárquico e injusto.

Por isso Batman não faz qualquer sentido (como a Justiça que ele diz encarnar), a não ser como um complemento do Coringa, e não como causa dele, como a história do personagem busca mostrar em todos os filmes e publicações.

O Coringa é em si o mal (caos capitalista), e neste caso, a única instância prenhe de algum sentido, justamente porque não faz sentido algum.

Por isso as traquitanas do Batman necessitam roupagens e atualizações permanentes (tecnologia) para métodos que não acompanham-nas (o vigilantismo é o mesmo de 1960), enquanto o palhaço e seu repertório mantêm a mesma simbolização (maquiagem), alterando sua morbidez mais ou menos sombria com a época histórica, mas inalterada em sua essência, seja com Cesar Romero, seja com Heath Ledger.

Ah, em tempo:

Desistam, os democratas não são os mocinhos ou a Liga da Justiça.



  



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Presente de grego.

 




Há algum tempo atrás, mesmo reconhecendo que a chapa do candidato do garoto do Garotinho necessitava de um vice que trouxesse algum capital eleitoral que, por questões inerentes ao próprio grupo da lapa, estavam fora de se alcance, torci o nariz para escolha de Wladimir Garotinho.

Mesmo entendendo sua demanda por agradar a classe média, e mais ainda, de acenar para o partido do judiciário com uma escolha que indicasse o desejo de manter alguma interlocução, achei temerário que colocar como vice o legatário das elites canavieiras.

Argumentei que, por ironia, as forças políticas que estão atrás do vice representam o arcaísmo político que o pai do candidato ousou um dia combater, lá nos idos de 1988, quando se projetou politicamente derrubando justamente a oligarquia que caía de pobre com o avô do atual prefeito.

Ou seja, o vice da chapa de Wladimir era um tiro na memória política de seu grupo.

Alguns poderiam dizer que era essa a intenção, mas não especulo neste caso para não fazer coro àqueles que imaginam que podem estimular esta ruptura para auferir alguma vantagem.

Outros, mais maldosos ainda, poderiam inferir que é isso mesmo que o pai do candidato desejava, isto é, matar esta sua memória de combatente das oligarquias, visto que se aliou confortavelmente a elas, e criou outras novas.

O fato é que eu dizia que o vice do Wladimir era um presente de grego, e disse também que o candidato a prefeito, caso eleito, deveria se preparar para a futura conspiração para sua derrubada pelo vice.

Confesso que nem a mais cabulosa teoria da conspiração engendraria tal enredo atual, que sugere-nos que tanta idiotice (deixar de sair de um cargo, como exigido por lei para formar a chapa eleitoral) só pode ser proposital, ou seja, o vice derrubou o prefeito antes de serem eleitos!

Inédita seria a manobra, e de uma crueldade ímpar.

Porém, concedendo ao vice-âncora o benefício da dúvida, o fato é que restam poucas chances de argumentação.

Vou dar uma delas:

O prazo processual, ou seja, a decisão do TRE com a impugnação é tardia e excede a possibilidade de sanar o erro, ou seja, de trocar o vice, dando à decisão um vigor maior, causando mais dano do que o dano que deseja reparar.

É a teoria conhecida da barata: não se matam as baratas derrubando o imóvel onde elas infestam.

No entanto, pode (e deve) dizer o TSE que aqui, o dano foi causado pela inércia (e inépcia) do próprio atingido, pois é certo que o direito não protege quem dorme, e por outro lado, permitir a troca seria atingir o direito de impugnação pelas outras chapas e pelo Parquet.

Por fim, temos que a permissão de troca sinaliza ainda que Lei pode ser torcida ao sabor dos interesses dos infratores, desestimulando assim, o seu cumprimento por todos.

Os defensores do candidato da Lapa indicam julgados que possibilitaram esta troca fora do prazo, porém é bom cuidado:

Cada caso é um caso, e os julgados neste sentido não somam uma dezena, o que afasta peso jurisprudencial.

Agora o debate é: 

Novas eleições serão convocadas?

Assume a chapa com a segunda maior votação?

Tem ou não tem segundo turno?

A chapa impugnada pode ir ao segundo turno, caso tenha os votos para tanto?

Quem sabe aí os "jênios jurídicos" possam dar um parecer correto aos candidatos? 

Chega de dica gratuita. 









A teoria do executivo unitário (ou o diabo mora nos detalhes)

 

As ironias sobre o "poder executivo absoluto e unitário" nos EUA.

Há um burburinho, um frisson nas eleições de Campos dos Goytacazes, que estava restrito aos círculos mais íntimos da campanha do filho da Lapa, mas ganhou corpo nos últimos dias.

Falo da possibilidade de cassação da chapa do garotinho do Garotinho e de seu vice, o coronel de engenho, que também era diretor de hospital e tantas outros penduricalhos institucionais, que serviam para encher currículo.

O motivo: o candidato a vice perdeu o prazo de desincompatibilizar destes cargos que ocupava, nos termos da Lei Eleitoral.

Os fiéis correligionários, e outros acólitos do culto da Lapa correm para abrandar as dúvidas, e desconfio que estamos diante de outro impasse.

Se nos EUA a judicialização das eleições parece arreganhar seus dentes, por aqui parece que ela já nos engoliu faz tempo, e novamente teremos que definir o jogo e seu resultado no tapetão.

Quem assistiu o ótimo filme de Adam Mckay, Vice, que trata da ascensão e queda (quer dizer, mais ou menos queda) de Dick Cheney, o ex-CEO da Halliburton que virou vice-presidente de George Bush Jr, sabe o que eu falo quando cito no título a teoria do executivo unitário.

Quem não sabe, aqui vai um breve comentário:

Nos países presidencialistas, onde os candidatos às chapas majoritárias (em todos os entes federativos) são eleitos juntos com os seus vices, não é possível dissociar o presidente, governador, ou prefeito deles.

Trata-se de um poder único (a presidência e sua vice-presidência), indivisível, e o vice só existe em função da presidência, por isso em alguns países, como os EUA, o vice é o Presidente do Congresso (as duas casas parlamentares) e vota em casos de empate.

Claro que os republicanos da época de Cheney usaram esta teoria para assaltar o poder após o 11/09, quando Cheney passou a tomar todas as importantes decisões nos EUA.

A tese esposada pelos defensores do garoto do Garotinho, de que o vice não atinge o prefeito (o assessório não afeta o principal) faria sentido se tivéssemos eleições separadas para prefeito e vice, como já houve no país.

Lembrem que em 1960, Jânio foi eleito em uma chapa, mas o vice, Jango, era de oposição e concorreu a uma eleição separada.

Aí sim, o principal não seria atingido pelo seu assessório.


Em resumo: não há chapa de prefeito sem vice! Ou a chapa é completa, ou não pode ser chapa!

Depois de eleitos e diplomados, e empossados, aí sim há previsões de substituição nas vacâncias de cada um, com remédios jurídicos adequados.

Na atual conformação legal, prefeito e vice (candidatos) são uma coisa só.
Como dissemos, só depois de diplomados e empossados, poderiam se utilizar da cadeia sucessória, no caso de impedimento do prefeito (por motivo alheio às cassações legais ou jurídicas que não implicassem em novas eleições), e do vice, que cederia ao Presidente da Casa Legislativa, ou a substituição através de convocação de eleições indiretas, conforme o caso.

Se o eleitor votar em um candidato a prefeito cujo vice está impugnado, correríamos o risco de que no caso de um impedimento do prefeito eleito antes da posse, da cidade ficar sem prefeito, e aí as previsões legais para correção desta situação alterariam o resultado do pleito e a vontade popular, por um vício de origem que poderia ser sanado antes.

Chamamos os segundos colocados? Nova eleição? Eleição indireta?

Qualquer que seja a medida cabível (não sou muito bom em legislação eleitoral) seria um atentando à vontade do eleitor, que é o bem jurídico que dá razão de existir do sistema eleitoral, e claro, da Justiça Eleitoral.

Os correligionários da Lapa apostam nesta situação de fato consumado, mas o fato é que seus argumentos não se sustentam.

Há outra questão de natureza política (e isso, claro, que "julga" é o eleitor):

Ora, se o prefeito na escolha de seu vice não atenta para um mero detalhe burocrático, apesar de todo o time de "jênios jurídicos", pagos a peso de ouro, como imaginar que farão um bom governo?

Está aí a dica para construção dos contra-argumentos, porque eu tenho quase certeza de que o TSE vai manter a impugnação...








terça-feira, 3 de novembro de 2020

O Inferno é aqui.

Uma breve olhada no atual cenário pré-primeiro turno em Campos dos Goytacazes nos mostrará que a cidade continua a optar por soluções desastradas, ou melhor, repetidamente desastradas para tratar dos mesmos problemas.

No pleito atual despontam os dois herdeiros de dinastias políticas recentes. 

Não por acaso, uma derivada da outra, já que o Garotismo do candidato em primeiro lugar nas pesquisas é a origem do capital político do segundo colocado.

Em resumo, poderíamos dizer que desde 1988 o modelo de gestão não se interrompeu, e parece que prevalecerá a partir de 2021.

Alguns dirão que houve um intervalo, simbolizado no mandato do atual prefeito (2016/2020), ele mesmo oriundo de outra dinastia política, que supostamente esteve alijada do poder desde 1988.

Na essência, porém, as coisas se mantiveram no mesmíssimo lugar, e ouso dizer que o domínio das elites agrárias e mercantis desta cidade, que depois se associaram a grupos empresariais urbanos (locais, regionais e nacionais), nunca foi, nem de fato, nem de direito, sequer arranhado ou ameaçado.

Diferenças de estilo, de linguagem, ou de acesso às faixas mais pobres da população, a cidade manteve intacta as estruturas de exclusão e hierarquias de classes herdades do modelo sucroalcooleiro, que migraram para a monocultura extrativista de hidrocarbonetos.

Os bilhões de reais que fluíram pela planície goitacá não moveram quase nada a base da pirâmide social, ao contrário, em determinados momentos, os institutos de pesquisa e acompanhamento dos índices de desenvolvimento humano revelam que mesmo no auge do recebimento dos recursos, os níveis de pobreza e desigualdade, inscritos no mais famoso parâmetro, IDH,  colocava a cidade de Campos dos Goytacazes nos últimos lugares dentre os municípios do RJ, e do Brasil.

O período do atual prefeito (2016/2020) não mudou esta direção, ao contrário, aprofundou ainda mais os efeitos desta cruel desigualdade, retirando dos mais pobres qualquer chance de amparo social nos programas mitigadores implantados pelos governos anteriores.

Esta percepção de piora do que era muito ruim traz a população uma nostalgia nefasta, ou seja, recolocar no poder as mesmas políticas públicas que soterraram a cidade.

A academia local e outros agentes políticos reverberam as cantilenas da "má gestão", "falta de responsabilidade fiscal", "corrupção", etc, etc, etc.

Outros avançam um pouco mais e intuem uma chamada falta de vontade (competência) política para interlocução, e/ou para formação de arranjos políticos e econômicos locais de naturezas virtuosas.

Não senhores, nada disso.

O que vivemos hoje não é crise, é projeto, como disse o inesquecível Darcy (Ribeiro).

Durante anos, desde os ciclos do açúcar do Segundo Império, seguido pela chamada época "áurea" das usinas (áurea para quem?), passando por outros micros arranjos locais fracassados (vestuário, alimentos, etc), chegando ao declínio do ciclo do açúcar e a chegada do petróleo, o projeto local sempre foi o mesmo:

Elites locais indigentes se associam às elites regionais e nacionais, e excluem a enorme maioria de pobres e desvalidos, enquanto os setores médios funcionam como "clientes" dos favores estatais, se apropriando da evolução de frágil dinâmica econômica extrativista, apostando em bolhas imobiliárias, e consumo de bens duráveis, enquanto vocalizam sua tradição política de fazer coro à narrativa dos donos do capital.

Esta constatação não se resume aos dois primeiros colocados nas pesquisas de intenções de votos, mas pode ser vista nas demais candidaturas, incluindo aí a do PT.

Nenhum dos candidatos (as) ousou dizer (uns por uma coerente convicção de classe, outros por covardia mesmo) que uma cidade só se sustenta quando os mais ricos pagam mais impostos que os mais pobres, baseado no princípio (CAPITALISTA) de que se os mais ricos são aqueles que mais se beneficiam da desigualdade gerada pela acumulação capitalista, nada mais justo que paguem mais impostos para que os efeitos desta desigualdade sejam mitigados.

Esta noção não tem nada de revolucionária, ou socialista.

Ela está estampada como princípio constitucional: a cada um o tributo na forma de sua capacidade (contributiva).

Salvo a candidata do Psol, nenhum dos candidatos apontou na direção óbvia: 

Ora, se faltam recursos, primeiro socorramos os mais pobres!

Se alocar recurso para gerar dinâmica econômica criasse alguma forma de melhorar a vida dos mais pobres, nossa cidade, o Estado, enfim, o País seriam um paraíso terrestre.

Digo mais: O próprio capitalismo mundial seria perfeito, já que desde toda e qualquer crise, desde o século XVII (A Crise das Tulipas) até a de 2008, foi o dinheiro público (dos impostos e de TODOS os contribuintes) que salvou a dinâmica capitalista, seja pela injeção de recursos, propriamente dita, seja nos gastos sociais advindos da necessidade proteção social aos milhões de excluídos durante as quebras capitalistas.

Fora de tempos das chamadas "crises", temos toda a sorte de subsídios, incentivos fiscais, e até os "incentivos" ilegais, que se concretizam na omissão dos entes federativos em cobrar com rigor os impostos sonegados.

Estes recursos somam trilhões de reais que não significaram um centavo de auxílio social ou a mais leve melhoria de vida dos mais pobres, ao contrário.

Em períodos de arrocho orçamentário, são justamente os serviços públicos mais básicos prestados aos mais pobres que faltam primeiro, assim como os vencimentos dos servidores.

Ao mesmo tempo que na falta de "apoio estatal" e de investimentos públicos (contratos de bens e serviços), empresas não hesitam em mandar seus empregados para rua, aumentando ainda mais a demanda por socorro social, com sobrecarga extra a tais orçamentos já antes exauridos com renúncias fiscais e isenções tributárias.

Recebem trilhões sob a justificativa (falsa) de geração de empregos, mas quando a economia quebra, a primeira medida é mandar embora os empregados, enquanto protegem seus lucros, concentrando ainda mais renda, e jogando os desempregados à própria sorte (ou azar).

Todo este cenário é cíclico: falta ao Estado dinheiro porque deu aos mais ricos, que concentram riqueza e geram mais desigualdade, desigualdade que aumenta a demanda por atendimento público, que é precário porque o dinheiro já foi desviado aos mais ricos com a justificativa de que gerariam riqueza, mas só geraram...mais desigualdade.

Apesar de todos os esforços dos intelectuais, e de vários envolvidos, uns de forma mais honesta, outros mais cínicos, o horizonte que se avizinha para a cidade de Campos dos Goytacazes não é muito diferente daquele que a trouxe até aqui.


Sugiro ao novo prefeito que coloque na entrada dos limites da cidade a famosa frase de Dante Alighieri na sua obra Divina Comédia:

"Lasciate ogni speranza, voi che entrate"

(Perdei toda esperança, vós que entrastes)





Quem faz a fama, deita na ca(â)ma(ra)? Um breve momento na Gaiola das Loucas!

  Algo vai muito mal quando juízes e policiais protagonizam política, e pior ainda, quando são políticos que os chamam para tal tarefa... Nã...